Meio Ambiente

Árvore de quase 5 mil anos é derrubada por cientista nos EUA e gera dilema

A história de Prometeu, uma árvore milenar cortada em Nevada, revela até onde a busca pelo conhecimento pode entrar em choque com a responsabilidade de preservar aquilo que é insubstituível

Foto: Reprodução.

Esta é uma daquelas histórias que nos fazem questionar o preço do progresso. Imagine um ser vivo que já estava fincado na terra quando as Pirâmides do Egito ainda eram apenas um projeto no papel. Agora, imagine esse mesmo gigante sendo derrubado, não por um desastre natural, mas pelas mãos da ciência. A história de Prometeu, uma árvore milenar cortada em Nevada, revela até onde a busca pelo conhecimento pode entrar em choque com a responsabilidade de preservar aquilo que é insubstituível.

O caso se transformou em um símbolo poderoso do dilema que marca a nossa era: qual é o limite ético da curiosidade científica quando ela exige a destruição definitiva de algo que jamais poderá ser recuperado?

Nesse episódio, a ciência não se limitou a observar a natureza, ela a derrubou literalmente para compreendê-la. E esse gesto, ainda hoje, ecoa como uma pergunta incômoda.

Quem era Prometeu, a árvore de quase 5 mil anos

Foto: Reprodução.

Prometeu não era uma árvore comum nem um caso isolado. Ela pertencia à espécie conhecida como pinheiro-de-aristas, famosa por reunir alguns dos organismos vivos mais antigos do planeta. Esses pinheiros habitam regiões das Montanhas Brancas, na Califórnia, e áreas próximas, onde alguns exemplares atravessaram milênios praticamente intactos.

Entre eles está Matusalém, uma árvore que já ultrapassou 4.850 anos de idade e que por muito tempo foi considerada a mais antiga do mundo ainda viva.

Prometeu crescia na borda do Pico Wheeler, em Nevada. Ela já era antiga quando as pirâmides do Egito estavam sendo erguidas. Mas não foi apenas sua idade extraordinária que a colocou na história.

O que tornou Prometeu um símbolo global foi o fato de ter sido derrubada deliberadamente, em pleno século 20, por decisão de um pesquisador, em um ato que expôs o custo oculto da ciência.

Como a árvore de quase 5 mil anos acabou no chão

Foto: Reprodução / Utah University.

Em 1964, Prometeu foi cortada durante uma pesquisa conduzida por Donald Rusk Currey, então um estudante de doutorado de apenas 30 anos.

A ideia inicial não envolvia destruir a árvore. Currey pretendia utilizar um método considerado relativamente seguro: retirar amostras do tronco com brocas especiais, sem comprometer a sobrevivência do pinheiro. No entanto, após quatro tentativas, duas brocas se quebraram dentro da madeira extremamente densa.

Diante do impasse técnico, Currey solicitou e obteve autorização do Serviço Florestal dos Estados Unidos para derrubar a árvore por completo.

Naquele momento, ele não sabia que estava diante do exemplar mais antigo conhecido do mundo. E, segundo os padrões científicos da época, não agiu de forma ilegal nem fora do protocolo. Ainda assim, o desfecho foi irreversível: uma árvore milenar transformada em toras e discos para análise em laboratório.

O que o cientista buscava ao derrubar Prometeu

O objetivo de Currey ia além de simplesmente determinar a idade da árvore. Seu interesse principal era compreender melhor as condições climáticas da chamada Pequena Idade do Gelo — um período mais frio no hemisfério norte que se estendeu aproximadamente do século XIV ao XIX.

Para isso, ele utilizava a dendrocronologia, uma técnica que analisa os anéis de crescimento das árvores. Cada anel funciona como um registro natural do clima: períodos de seca, frio intenso ou maior umidade ficam marcados na largura e na textura dessas camadas.

Em uma época em que dados climáticos instrumentais ainda eram escassos, uma árvore de quase cinco mil anos parecia um arquivo natural precioso, capaz de revelar séculos de história ambiental.

Ele sabia o que estava fazendo?

Do ponto de vista científico, Currey tinha consciência de que estava lidando com uma árvore extremamente antiga. Isso, inclusive, fazia parte do motivo pelo qual ela foi escolhida para o estudo.

O que nem ele nem a comunidade científica da época sabiam era que Prometeu poderia ser um exemplar único, capaz de rivalizar com Matusalém pelo título de árvore mais antiga do planeta.

Quando a contagem dos anéis revelou a idade impressionante de Prometeu, a reação foi de choque. A pergunta surgiu quase automaticamente: o fato de não se saber o quão extraordinária era aquela árvore justifica sua destruição?

Em outras palavras, a boa intenção científica é suficiente para legitimar um dano irreversível à natureza?

A árvore de quase 5 mil anos como alerta ético

A queda de Prometeu funcionou como um despertar coletivo. O episódio levou a uma reavaliação profunda da forma como monumentos naturais antigos eram tratados, especialmente árvores milenares.

Espécies como os pinheiros-de-aristas passaram a receber maior atenção e proteção. A localização de exemplares extremamente antigos começou a ser mantida em sigilo, e políticas mais rígidas foram adotadas para evitar que histórias semelhantes se repetissem.

Ao mesmo tempo, a própria dendrocronologia evoluiu. Hoje, os métodos são muito mais cautelosos e minimamente invasivos, capazes de gerar dados confiáveis sem comprometer a vida da árvore.

Nesse sentido, Prometeu marcou um ponto de virada: revelou o limite do que se estava disposto a sacrificar em nome do conhecimento e forçou a ciência a buscar caminhos mais responsáveis.

Prometeu, mito e realidade: o preço do conhecimento

O nome Prometeu carrega um simbolismo profundo. Na mitologia grega, o titã rouba o fogo dos deuses — símbolo do conhecimento e da civilização — para entregá-lo à humanidade, pagando um preço altíssimo por esse ato.

De forma trágica, a árvore Prometeu também se tornou o preço de uma etapa da ciência. Mas, diferente do mito, ela não escolheu o sacrifício.

Essa analogia reforça o peso simbólico do caso. Prometeu não é apenas um tronco antigo derrubado por uma broca que falhou. Ele encarna uma pergunta que permanece aberta: até que ponto temos o direito de transformar a natureza em instrumento, mesmo quando o objetivo é compreendê-la melhor?

O legado da árvore de quase 5 mil anos

No fim das contas, Prometeu deixou um legado ambíguo. Por um lado, contribuiu com dados importantes para a reconstrução do clima do passado.

Por outro, tornou visível a necessidade de limites éticos claros na produção do conhecimento científico, especialmente quando estão em jogo elementos naturais únicos e irrecuperáveis.

A árvore de quase cinco mil anos expôs, de forma dramática, a tensão entre curiosidade científica e responsabilidade ambiental. Assim como no mito, o “fogo” do conhecimento veio acompanhado de um custo alto demais para ser ignorado. E a ciência, a partir desse episódio, foi obrigada a se encarar no espelho.