Agricultura

Montanhas de cebola são descartadas em SC após queda histórica de preços

A imagem da safra desperdiçada sintetiza um colapso que vinha se formando ao longo da colheita.

Foto: Luciano Cerin / ND Mais.

Montes de cebola descartados à beira de rodovias em Santa Catarina tornaram visível uma crise profunda na principal cadeia agrícola do Alto Vale do Itajaí. Em Aurora, ao menos 11 grandes montes foram jogados fora após o preço de venda cair abaixo do custo de produção. O cenário de prejuízo se estende a Ituporanga, município reconhecido nacionalmente como a Terra da Cebola e que decretou situação de emergência econômica por 180 dias.

A imagem da safra desperdiçada sintetiza um colapso que vinha se formando ao longo da colheita. Produção em ritmo elevado, dificuldade de escoamento, margens negativas e pressão financeira crescente colocaram produtores em uma encruzilhada. Em muitos casos, colher e transportar passou a significar ampliar perdas, e não gerar renda.

Preço abaixo do custo transforma a safra em prejuízo

Quando a cebola passa a ser vendida por valores inferiores ao custo, a lógica econômica da atividade se inverte. Cada etapa adicional, da colheita ao transporte, pesa contra o produtor. Nesse ponto, a produção deixa de ser um ativo e se torna um passivo financeiro, capaz de aprofundar dívidas e comprometer a sobrevivência das famílias que dependem da cultura.

O descarte registrado em Aurora não foi uma escolha simples, mas o resultado de um encadeamento crítico. Mercado pressionado, remuneração insuficiente e gargalos na comercialização empurraram parte da safra para fora do circuito econômico. As montanhas de cebola à beira da estrada chamaram atenção justamente por materializar um problema que, em geral, permanece invisível nas planilhas de custos e nas contas atrasadas.

Montanhas de cebola são jogadas fora após colapso no preço em Aurora – Vídeo: Luciano Cerin/ND Mais.

Aurora e Ituporanga concentram impactos no Alto Vale

Aurora está a cerca de 14 quilômetros de Ituporanga e compartilha o mesmo ambiente produtivo e as mesmas vulnerabilidades de mercado. A proximidade ajuda a explicar a rápida propagação da crise. Quando o preço da cebola cai em um ponto da cadeia regional, o efeito se espalha para os municípios vizinhos que dependem da mesma dinâmica de compra e venda.

Em Ituporanga, o impacto vai além da queda de preços. Trata-se de um choque sobre a atividade estratégica do município, com reflexos no emprego rural, na circulação de renda, na capacidade de investimento no campo e na previsibilidade das próximas safras. Em regiões altamente especializadas, como o Alto Vale do Itajaí, crises desse tipo atingem toda a economia local.

Emergência por 180 dias busca reduzir danos imediatos

O decreto de situação de emergência econômica por 180 dias em Ituporanga reconhece oficialmente a gravidade do quadro. A medida permite adotar ações administrativas excepcionais, priorizar políticas voltadas à cadeia da cebola, facilitar o acesso a crédito e criar condições para renegociação de dívidas em um período de forte estrangulamento de caixa.

Também abre espaço para buscar apoio técnico e financeiro junto a outras esferas de governo e instituições financeiras, com acompanhamento da Secretaria Municipal de Agricultura. Embora o decreto não resolva o desequilíbrio de preços, ele cria instrumentos para mitigar perdas imediatas e organizar uma resposta coordenada, com o objetivo de evitar novos episódios de desperdício em larga escala.

Reaproveitamento como adubo reduz impacto ambiental

Foto: Luciano Cerin / ND Mais.

No caso de Aurora, o proprietário do terreno autorizou o descarte e informou que a cebola será reaproveitada como adubo. A medida reduz parte do impacto ambiental de uma perda já consolidada, ao devolver algum valor agronômico ao material que não encontrou saída comercial.

Ainda assim, o reaproveitamento não ataca o núcleo do problema. Transformar cebola em adubo é uma forma de lidar com a consequência, não com a causa. O produtor segue exposto ao risco central de vender abaixo do custo, e a região continua dependente de soluções que envolvam preço, logística de comercialização e mecanismos de estabilidade para a cadeia produtiva.

Crise expõe fragilidades estruturais da cadeia da cebola

A sucessão de prejuízos indica que a situação atual não é um episódio isolado. Ela revela fragilidades acumuladas na relação entre produção e mercado. Quando falta previsibilidade de remuneração, mesmo safras volumosas podem se converter em perda econômica.

Para Aurora, Ituporanga e os municípios do entorno, o desafio passa por coordenação regional, resposta do poder público e proteção mínima de renda em períodos críticos. Sem instrumentos capazes de amortecer quedas abruptas de preço, a cebola segue oscilando entre prosperidade e colapso, com impacto direto sobre quem sustenta a principal cadeia agrícola do Alto Vale do Itajaí.