Saúde

Praga que devora carne viva acende alerta na pecuária

Caso a praga ultrapasse fronteiras, a estratégia sanitária prevê quarentenas pontuais, controle de movimentação e inspeção direcionada apenas aos animais afetados.

Foto: Reprodução / Rovers / IA.

A Bicheira do Novo Mundo (New World Screwworm – NWS) voltou ao centro das discussões sanitárias da pecuária internacional. Autoridades reforçaram medidas preventivas diante do risco de avanço da praga, especialmente na América do Norte. Apesar da preocupação entre produtores, especialistas esclarecem que o problema se trata de uma infestação parasitária em animais específicos, e não de uma infecção capaz de comprometer automaticamente todo o rebanho.

O alerta foi destacado pelo médico-veterinário Dr. Adis Dijab, administrador associado adjunto dos serviços veterinários do Animal and Plant Health Inspection Service (APHIS), durante reunião do comitê de saúde e bem-estar bovino na CattleCon.

“Isso não é uma infecção. Quando falamos em infecção, existe o potencial de que todos os animais estejam contaminados. Nesse caso, trata-se da infestação de um animal; você pode verificar os demais e eles podem estar bem”, explicou Dijab.

Bicheira do Novo Mundo na pecuária: o que muda para o produtor

Caso a praga ultrapasse fronteiras, a estratégia sanitária prevê quarentenas pontuais, controle de movimentação e inspeção direcionada apenas aos animais afetados.

Segundo Dijab, esse modelo permite que o pecuarista libere rapidamente os demais animais do rebanho e mantenha as operações ativas, desde que haja colaboração com os protocolos oficiais de fiscalização.

O APHIS também pretende evitar bloqueios totais, adotando zonas sanitárias específicas e saídas rápidas da quarentena após inspeção. A medida busca reduzir impactos econômicos na cadeia produtiva da carne e preservar a rentabilidade das propriedades.

Por que a Bicheira do Novo Mundo preocupa o setor pecuário

A NWS é causada por uma mosca parasita cujas larvas se alimentam de tecido vivo. Essa característica aumenta o risco de lesões severas e pode levar à morte do animal quando não há tratamento adequado.

Entre os principais pontos de atenção estão:

  • Ciclo de vida médio de 21 dias, podendo se estender em temperaturas mais frias;
  • Baixa atividade em temperaturas próximas de 4 °C;
  • Preferência por ambientes com água, sombra, vegetação e presença de hospedeiros;
  • Capacidade de deslocamento limitada, geralmente cerca de 3 quilômetros por dia.

Dados do COPEG mostram que, no México, ferimentos umbilicais lideram as condições que favorecem a miíase, seguidos por cortes, picadas e outras lesões. O cenário reforça a importância do manejo sanitário rigoroso, especialmente em períodos de maior vulnerabilidade dos animais.

Transporte ilegal de animais amplia risco de disseminação

O padrão recente de avanço da praga indica que o principal vetor não é o voo da mosca, mas o transporte irregular de animais.

“Um dos principais meios de movimentação dessa mosca não é o voo; são 18 rodas a 60 ou 70 milhas por hora na estrada”, afirmou Dijab, ao mencionar o salto repentino de casos do sul de Veracruz para o centro de Tamaulipas, no México. O episódio é considerado um indício claro de movimentação ilegal.

Diante desse cenário, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) iniciou a dispersão preventiva de moscas estéreis no sudeste do Texas como barreira contra possível avanço da praga.

Moscas estéreis seguem como principal estratégia contra a NWS

Os Estados Unidos utilizam há décadas a Técnica do Inseto Estéril como ferramenta central de erradicação da Bicheira do Novo Mundo.

Atualmente, a estrutura conta com:

  • Uma instalação no Panamá que produz cerca de 100 milhões de pupas estéreis por semana;
  • Planejamento de uma nova unidade na base aérea de Moore, no sul do Texas, com meta de 300 milhões de moscas por semana até 2027;
  • Parceria com o México para produção adicional de 100 milhões por semana, com resultados iniciais previstos para o fim do verão.

A meta combinada é atingir aproximadamente 500 milhões de moscas estéreis por semana, volume semelhante ao utilizado nas campanhas de erradicação realizadas na década de 1990.

“Isso é o que está nos mantendo vivos agora. É a razão pela qual não temos a Bicheira do Novo Mundo em solo americano”, ressaltou o veterinário.

Vigilância sanitária e defesa em camadas

Para impedir a entrada da praga, as autoridades adotam uma estratégia baseada em três pilares:

  • Controles rigorosos de importação;
  • Monitoramento ativo em áreas estratégicas;
  • Armadilhas instaladas ao longo da fronteira, próximas a fontes de água, rebanhos e vegetação.

A estrutura inclui uma rede com 400 veterinários federais e estaduais treinados para diagnosticar doenças animais estrangeiras. Desde junho, foram realizadas mais de 300 investigações relacionadas à NWS, sem registro da praga até o momento, além de 900 inspeções em peles e animais silvestres.

Mesmo com o aparato técnico, Dijab destaca que a fauna silvestre representa uma preocupação constante. “O que mais me assusta em relação à NWS é a vida selvagem”, afirmou.

Impacto da Bicheira do Novo Mundo na pecuária

O reforço das medidas sanitárias transmite um recado claro ao setor pecuário: prevenção, vigilância e controle da movimentação animal são fundamentais para evitar prejuízos.

Embora a infestação não signifique perdas generalizadas de imediato, falhas no controle, especialmente no transporte irregular de animais, podem acelerar a disseminação da praga e elevar os custos sanitários.

Para o produtor rural, a orientação é objetiva: monitorar ferimentos, intensificar o manejo sanitário e cumprir rigorosamente os protocolos de movimentação são ações essenciais para proteger o rebanho, manter a produtividade e garantir a sustentabilidade da atividade pecuária.

Fonte: Compre Rural