
Garantir alimentos suficientes, acessíveis e produzidos de forma sustentável para uma população mundial em crescimento é um dos maiores desafios atuais. Com cerca de 670 milhões de pessoas em situação de fome e mais de 2 bilhões enfrentando algum grau de insegurança alimentar, a discussão sobre segurança alimentar se torna cada vez mais urgente.
Para enfrentar essa demanda, especialistas defendem a ampliação da eficiência dos sistemas produtivos, a redução de desperdícios e o investimento em práticas sustentáveis, além do aumento da produção.
O Brasil se destaca nesse cenário por sua capacidade de produzir grandes volumes de alimentos e pelo potencial de ampliar sua produção sem necessidade de desmatar novas áreas, consolidando-se como protagonista do agronegócio mundial.
Segundo o professor em agronegócio na Fecap, José Luiz Tejon, países altamente dependentes de alimentos precisam desenvolver um agronegócio viável e sustentável. Ele ressalta que o Brasil aprendeu a equilibrar produtividade e preservação, servindo de exemplo para o mundo.
Desperdício de alimentos e perdas na cadeia
Atualmente, quase um terço de tudo que é produzido globalmente não chega ao consumo final. Dados da FAO indicam que 13% dos alimentos se perdem entre a colheita e o varejo, enquanto 19% são descartados por consumidores, restaurantes e supermercados.
Especialistas consideram a redução dessas perdas fundamental para melhorar a segurança alimentar. A cadeia produtiva e o consumidor têm papel importante na conscientização e na criação de alternativas para reaproveitamento de alimentos que, apesar de perderem valor comercial, ainda são próprios para consumo.
Vinícius Cambaúva, professor na Harven Agribusiness School, destaca que grande parte do desperdício ocorre na etapa de consumo, muitas vezes por falta de conhecimento. Ele aponta que estratégias de reutilização, como o processamento de frutas e legumes maduros, já são adotadas por algumas redes varejistas para diminuir perdas.
Essas estratégias incluem a venda de produtos in natura em estágios avançados de maturação, que podem ser utilizados na fabricação de sucos, bebidas e outros alimentos processados, ampliando o aproveitamento ao longo da cadeia.
Crescimento populacional e avanços sustentáveis
Com uma população mundial que ultrapassa 8,2 bilhões e previsão de chegar a mais de 9 bilhões nas próximas décadas, a demanda por alimentos deve crescer ainda mais, pressionando os sistemas de produção.
Paula Packer, chefe-geral da Embrapa Meio Ambiente, comenta que o setor agropecuário vem adotando técnicas como agricultura de baixo carbono, bioinsumos, sistemas integrados e manejo regenerativo do solo, que ganham espaço na busca por uma agricultura mais sustentável.
Ela reforça que esses avanços são essenciais para que o Brasil possa consolidar uma agricultura sustentável e competitiva, equilibrando produtividade e preservação ambiental.
Importância do solo na sustentabilidade
Apesar dos avanços tecnológicos, o setor enfrenta desafios como conflitos geopolíticos e eventos climáticos extremos. A adaptação ao solo é uma das principais estratégias para garantir a sustentabilidade e a produtividade.
Clenio Pillon, diretor de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa, destaca que práticas como o uso de genética avançada e soluções tecnológicas podem promover sistemas agrícolas com balanço de carbono mais favorável, contribuindo para a sustentabilidade.
O solo é considerado um ativo vivo e dinâmico, onde diferentes organismos cooperam para uma produção mais eficiente e sustentável.
Agricultura regenerativa e resiliência
A agricultura regenerativa tem se consolidado como uma ferramenta eficaz para reduzir perdas e fortalecer a resistência das lavouras às adversidades climáticas.
Bárbara Sollero, da Nestlé Brasil, afirma que a prática ajuda a evitar perdas futuras, demonstrando resultados visíveis em fazendas que adotam esse sistema. Ela ressalta que o engajamento de vizinhos pode ocorrer ao perceberem a maior resistência de lavouras regenerativas frente a eventos climáticos extremos.
Na agricultura regenerativa, cada espécie plantada desempenha uma função específica que contribui para a saúde do solo e para o aumento da produtividade, mesmo em condições adversas.
Ao aproveitar a inteligência natural do sistema, o produtor consegue melhorar a fertilidade do solo, aumentar a resiliência das lavouras e manter altos níveis de produtividade, mesmo diante de desafios climáticos.
Packer reforça a necessidade de mostrar de forma clara e unificada as ações do agronegócio brasileiro, que possui diferentes biomas, solos e climas, além de tecnologias como plantio direto, bioinsumos e sistemas integrados, muitas vezes desconhecidas fora do país.
Brasil na cena global de exportações
O Brasil já alimenta quase 1 bilhão de pessoas pelo mundo e é um dos maiores exportadores de soja, milho, carnes, algodão, café, suco de laranja e açúcar.
Segundo Cambaúva, o país passa por um processo de desglobalização, no qual nações que antes focavam na exportação estão se voltando para a autossuficiência, o que pode representar novos desafios e oportunidades no comércio internacional.
Ele destaca que conflitos globais aumentam os riscos para economias e negócios, levando países a repensar suas estratégias de proteção e autossuficiência, o que pode impactar o comércio agrícola.
Para Cambaúva, essa mudança de foco exige que o Brasil continue investindo na recuperação de pastagens degradadas, que atualmente totalizam cerca de 40 milhões de hectares, possibilitando ampliar a produção sem desmatar novas áreas.
Essa estratégia faz parte do plano ABC+ do Ministério da Agricultura, que busca produzir mais com menos recursos e menor impacto ambiental, mantendo a integridade do programa de recuperação de áreas degradadas.
Perspectivas para o futuro do agronegócio brasileiro
O futuro da segurança alimentar global depende da capacidade de produzir mais com menos recursos, combinando inovação, preservação ambiental e eficiência. Nesse contexto, o Brasil se apresenta como uma peça-chave para garantir o abastecimento mundial nas próximas décadas.
De acordo com Tejon, até 2032, o Brasil deve superar os Estados Unidos em área agrícola, consolidando-se como o único país capaz de expandir sua produção de forma sustentável e com modelos agroambientais avançados, como a integração lavoura-pecuária e sistemas ILPF.
Fonte: Planeta Campo.








