
Nos últimos meses, o mercado agrícola tem registrado uma tendência de queda nos preços de commodities como soja, milho e cana-de-açúcar, enquanto os custos de produção permanecem elevados. Essa combinação resulta em uma redução significativa nas margens de lucro, aumentando o risco de descapitalização dos produtores.
No setor de cana-de-açúcar, a situação se agravou com a forte queda do ATR, indicador que mede a quantidade de açúcar recuperável na matéria-prima. A surpresa no início da safra gerou preocupação, especialmente entre fornecedores independentes, que dependem diretamente do valor do ATR para sua remuneração.
Entendendo a importância do ATR para o setor
O ATR representa a quantidade de açúcar que pode ser extraída de uma tonelada de cana, influenciando diretamente a produtividade e a lucratividade. A remuneração do produtor é calculada com base na quantidade de ATR por tonelada e no valor de mercado desse indicador. Quanto maior o ATR e seu preço, maior é a receita do produtor.
Quando o ATR diminui, a rentabilidade do setor sofre impacto imediato, dificultando a manutenção da saúde financeira dos produtores.
“ATR a R$ 0,93 é muito baixo”, alerta Felippe Stelutti
O engenheiro agrônomo Felippe Stelutti, especialista em cana-de-açúcar, destacou a preocupação com o cenário atual. Segundo ele, o valor do ATR está incompatível com os custos de produção, o que pode levar muitos produtores à falência se a situação persistir. “O preço do ATR caiu bastante, e essa situação vai prejudicar muitos canavieiros”, afirmou.
Stelutti revelou que esperava um ATR entre 1,03 e 1,05 no início da safra, mas se deparou com valores na casa de 0,93, considerado um patamar crítico. “Fiquei bastante surpreso e preocupado com o futuro do setor, especialmente para os fornecedores”, comentou.
Pressão de custos compromete a rentabilidade da atividade
O problema não se restringe à queda do ATR, mas também ao descompasso com os custos de produção, que continuam elevados. Entre os principais fatores estão o aumento do preço do diesel, que chega a quase R$ 8 por litro, e os custos de adubação, que podem ultrapassar R$ 5 mil por hectare no plantio e R$ 4,9 mil na cobertura. Além disso, as taxas de juros elevadas dificultam o acesso a crédito.
- Diesel próximo de R$ 8 por litro
- Adubação chegando a R$ 5,2 mil no plantio e R$ 4,9 mil na cobertura
- Juros elevados encarecendo o crédito
Com esse cenário, surge a dúvida:“Como o produtor de cana vai arcar com os altos custos do canavial?”
Análise da rentabilidade frente aos custos elevados
Stelutti detalha que, considerando uma produtividade média de 100 toneladas por hectare ao longo de cinco anos e um ATR de 110 kg por tonelada, a receita anual por alqueire fica em torno de R$ 5 mil, ou aproximadamente R$ 416 mensais. Entretanto, os custos de plantio e manutenção, que podem chegar a R$ 40 mil por hectare, mais R$ 10 mil ao longo do ciclo, tornam o retorno financeiro bastante apertado.
Em um cenário com ATR de 100 kg por tonelada, a receita se reduz ainda mais, deixando uma sobra de apenas R$ 300 por mês, ou R$ 3.600 por alqueire ao ano. Segundo Stelutti, abaixo de 100 kg de ATR, a situação se torna praticamente insustentável, levando ao prejuízo quase certo.
Para ele, a combinação de custos elevados e ATR abaixo de 100 kg torna inviável a continuidade da atividade para muitos produtores, colocando em risco a sobrevivência de parte do setor.
Produtores descrevem cenário de crise como “insustentável”
Relatos de agricultores reforçam a percepção de uma crise mais ampla no agronegócio, com dificuldades em diversas cadeias produtivas. Comentários indicam que a situação se tornou difícil de sustentar, com muitos já considerando a possibilidade de reduzir investimentos ou abandonar a atividade.
- “Mais um ano-safra muito desafiador para o nosso setor.”
- “A situação está insustentável… a conta não fecha.”
- “ATR abaixo de 1,00 é quase impossível a conta fechar.”
- “Se continuar a cair podemos procurar o que fazer, porque produzir qualquer cultura não dá mais.”
Além da questão econômica, há críticas à ausência de políticas públicas que promovam maior previsibilidade e estimulem o consumo de etanol, essenciais para a recuperação do setor.
Algumas regiões ainda mantêm margem, mas em declínio
Em áreas como a de Catanduva (SP), onde o ATR livre chega a cerca de 140 kg por hectare, ainda há alguma rentabilidade. Contudo, mesmo nesses locais, as margens estão significativamente comprimidas, dificultando a continuidade da atividade.
Crise cíclica com impacto sem precedentes
Stelutti reforça que, apesar do momento difícil, a agricultura é marcada por ciclos de altos e baixos. Ainda assim, a atual fase se diferencia por uma compressão de margens sem precedentes, consequência da combinação de preços baixos e custos elevados.
Em suas redes sociais, o especialista compartilhou um post reforçando a gravidade da situação no setor.
Impactos mais amplos no mercado agrícola
O problema na cana não é isolado. Outros segmentos também enfrentam dificuldades, como a soja, com preços considerados baixos, o limão, sem mercado e sem preço, além de custos operacionais elevados em diversas culturas.
A percepção predominante entre produtores é de uma crise mais ampla no agronegócio, com redução da rentabilidade geral e aumento da incerteza quanto ao futuro da atividade rural no país. Caso o movimento de queda dos preços continue sem reversão, o risco de descapitalização, redução de investimentos e saída de produtores se torna uma ameaça real, podendo afetar toda a cadeia produtiva do setor sucroenergético.
Fonte: Compre Rural.








