Agronegócio

Guerra no Irã afeta custos do agronegócio brasileiro e ameaça margens de lucro

Conflito envolvendo o Irã no Estreito de Ormuz impacta custos de fertilizantes, energia e câmbio, colocando em risco a rentabilidade do setor agrícola brasileiro mesmo sem aumento imediato de preços.

Middle East war
Guerra no Oriente Médio. Foto: Reprodução.

O conflito no Irã, que já dura quase dois meses, começa a mostrar efeitos diretos nos custos do setor agrícola brasileiro, principalmente por meio do aumento de preços de fertilizantes, energia e variações cambiais. Diferentemente do que ocorreu durante a guerra na Ucrânia, neste momento o impacto não se reflete imediatamente nos preços agrícolas, mas na margem de lucro das operações.

Impacto indireto na cadeia produtiva

Após mais de dois meses de conflito, o Estreito de Ormuz voltou a ocupar posição central no cenário geopolítico global, influenciando de forma indireta os custos do agronegócio brasileiro. O impacto ocorre por meio de cadeias de fornecimento, elevando os preços de fertilizantes nitrogenados, energia e elevando a volatilidade cambial. Culturas que dependem de nitrogênio, como o milho, sentem mais essa pressão do que a soja, que fixa esse nutriente biologicamente, reduzindo sua vulnerabilidade ao aumento de custos.

O momento atual favorece uma certa estabilidade, pois grande parte dos fertilizantes para a safra de inverno de 2026 já foi adquirida antes do agravamento do conflito. Assim, o risco imediato é mais relacionado às próximas safras, especialmente 2026/27 e a safrinha de 2027, que ainda dependem de compras futuras e estão sujeitas a preços mais elevados e à incerteza de oferta.

O paralelo com o impacto da guerra na Ucrânia ajuda a entender a dinâmica atual. Em 2022, o mundo enfrentou um choque simétrico de custos e preços, enquanto agora o cenário é mais assimétrico: o aumento de custos de energia, fertilizantes e logística não tem sido acompanhado por uma elevação correspondente nos preços agrícolas, o que amplia o risco de deterioração das margens.

O aumento nos custos de energia, como diesel e frete, afeta toda a cadeia produtiva. Além disso, a valorização do real, impulsionada por juros elevados e fluxo de capitais, reduz a capacidade de repassar esses custos ao mercado interno, pressionando as margens das operações agrícolas. Essa assimetria entre custos em dólar e preços em reais representa um desafio adicional para o setor.

Apesar de a soja parecer mais protegida por sua fixação biológica de nitrogênio, ela não está completamente isenta do impacto. Custos de fósforo, potássio, energia e logística continuam pressionando o custo total. Além disso, não há garantia de que o preço do soja aumente na mesma proporção que os custos, elevando o risco de perda de rentabilidade.

Um erro comum é analisar as culturas de forma isolada e perder a visão do sistema como um todo. O aumento de custos em fertilizantes, por exemplo, impacta toda a operação, desde a próxima safra até o milho futuro, além de influenciar a necessidade de crédito e o fluxo de caixa. Assim, o risco deixa de ser apenas geopolítico e passa a ser financeiro.

Uma resposta natural ao aumento de custos é a redução do uso de tecnologia, como menor aplicação de insumos e ajustes na adubação, para aliviar o caixa no curto prazo. Porém, essa estratégia pode comprometer a produtividade e ampliar o risco de perdas na margem de lucro, especialmente em um momento de pressão de custos.

O momento exige disciplina na gestão financeira. O maior risco não está nas compras já realizadas, mas nas decisões que ainda precisam ser tomadas. Com custos elevados, a liquidez se torna um fator crítico, pois o custo ocorre antes da geração de receita.

O mercado já compreende que o impacto inicial foi no custo, e que o próximo passo será a necessidade de capital de giro mais caro e mais restrito. A pressão sobre fertilizantes e energia reforça a importância de uma gestão cuidadosa, pois o que está em jogo é a sobrevivência das operações, mais do que resultados pontuais.

Condições atuais e riscos futuros

Após quase dois meses de conflito, a questão deixou de ser exclusivamente militar e se transformou em uma questão econômica. O Estreito de Ormuz virou instrumento de negociação, levando o mercado a tratar essa condição como algo “normal”, mesmo com a disrupção física persistente. Essa mudança de percepção é um risco adicional.

O aumento de custos já é evidente, mas os preços agrícolas ainda não refletem essa pressão. Além disso, o conflito pode influenciar decisões políticas, como mudanças na mistura de etanol na gasolina ou biodiesel no diesel, o que, por sua vez, impacta a demanda por milho, soja e óleo vegetal. Assim, o cenário envolve não apenas custos, mas também questões de demanda.

O ambiente permanece incerto, com o risco de que custos subam antes de uma eventual recuperação de preços. A gestão de risco deve focar em evitar dependência de um único desfecho, considerando que fatores políticos, econômicos e de mercado podem evoluir de forma imprevisível.

Este artigo é uma opinião de Rafael Harada, sócio da Rural Capital, publicado em The Agribiz.

Fonte: the agribiz.com