Ciência

Fungo natural altera aroma do milho e atrai vespa que combate praga

Estudo da Embrapa revela que um fungo benéfico modifica os compostos aromáticos do milho, estimulando a atração de uma vespa parasita que controla a população do percevejo-barriga-verde, uma ameaça comum na cultura.

Foto: planetacampo.canalrural.com.br / Gerada por IA
Percevejo-barriga-verde, uma das principais pragas do milho e de outras culturas de importância econômica no Brasil – Foto: Paulo Roberto Valle da Silva Pereira.

Pesquisadores da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia (DF) identificaram que a aplicação de um fungo benéfico nas folhas do milho causa alterações na composição de compostos voláteis emitidos pela planta.

Essa mudança no aroma vegetal atua como um sinal químico que atrai uma vespa parasitoide, capaz de parasitar os ovos do percevejo-barriga-verde. A estratégia natural promove o controle biológico dessa praga, reduzindo a necessidade de uso de defensivos químicos na lavoura.

O percevejo-barriga-verde causa prejuízos consideráveis principalmente em sistemas de plantio direto com rotação entre soja e milho. Após a colheita da soja, o inseto migra para as plantas jovens de milho, atacando na fase inicial de desenvolvimento, o que pode comprometer até 30% da produtividade.

Para solucionar esse problema sem depender exclusivamente de defensivos convencionais, uma equipe liderada pela pesquisadora Maria Carolina Blassioli Moraes conduziu um estudo de cinco anos, focado na integração de tecnologias ecológicas.

O projeto combinou o uso do fungo Beauveria bassiana com a atuação da vespa Telenomus podisi, que parasita ovos do percevejo, promovendo um controle natural e sustentável da praga.

Os resultados do trabalho foram publicados no artigo Association of Beauveria bassiana with maize alters volatile organic compounds and enhances attraction of the egg parasitoid Telenomus podisi, na revista internacional Journal of Pest Science.

A pesquisa utilizou uma linhagem específica do fungo, denominada CG 1105, originada do banco de microrganismos da própria Embrapa. Inicialmente, as plantas de milho foram pulverizadas com o microrganismo, visando impactar diretamente a população do percevejo.

Porém, a reação mais impactante observada foi na comunicação química das plantas. Após cinco dias da aplicação, verificou-se que o fungo colonizou as folhas de forma benéfica, alterando significativamente a composição dos odores emitidos pela planta.

Esse impacto foi evidenciado pelo aumento na produção de salicilato de metila, uma substância conhecida por atrair inimigos naturais de pragas, e pela redução na emissão de alfa-farneseno, um composto de aroma doce e amadeirado amplamente utilizado na indústria de fragrâncias.

Segundo a pesquisadora Maria Carolina Blassioli Moraes, essa mudança no perfil aromático do milho funciona como um sinal de aviso para a vespa Telenomus podisi. Ao detectar a alteração, o inseto consegue localizar rapidamente as áreas afetadas e parasitar os ovos do percevejo.

A vespa deposita seus ovos dentro dos ovos do percevejo, impedindo a eclosão de novos insetos e contribuindo para o controle populacional da praga de forma sustentável.

Perspectivas para manejo integrado de pragas

Até o momento, todos os testes foram realizados em laboratório. A equipe da Embrapa planeja agora ampliar as avaliações para testes de campo nos próximos meses, buscando validar a eficácia da estratégia na prática agrícola.

Se os resultados de campo confirmarem as expectativas, os produtores rurais poderão adotar um protocolo inovador de Manejo Integrado de Pragas (MIP), que combina estratégias biológicas para proteger as lavouras de forma mais sustentável, reduzindo custos e impactos ambientais.

Fonte: Planeta Campo.