
A recuperação de funções motoras e sensoriais após uma lesão grave na medula espinhal sempre representou um dos maiores desafios da medicina moderna. No entanto, uma pesquisa pioneira desenvolvida na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) está abrindo novos caminhos com uma substância chamada polilaminina.
Esta medicação experimental tem demonstrado um potencial revolucionário para auxiliar na reconexão de fibras nervosas, oferecendo uma nova perspectiva para pacientes com traumas raquimedulares.
O que são a Laminina e a Polilaminina?

Para entender a inovação, primeiro precisamos olhar para a natureza do nosso próprio corpo.
A Laminina é uma proteína natural e o principal componente molecular da membrana basal (um tipo especializado de matriz extracelular). Ela funciona como um “andaime” biológico que regula o comportamento celular e fornece o suporte essencial para o desenvolvimento dos tecidos e a embriogênese. No sistema nervoso, a laminina guia a migração neural e o crescimento dos axônios (as extensões dos neurônios que transmitem impulsos elétricos).
A Polilaminina (poliLM), por sua vez, é um polímero biomimético criado em laboratório. Quando as proteínas lamininas são extraídas (neste caso, de placentas doadas por mulheres saudáveis) e colocadas em um meio ácido específico (pH < 7), elas se unem quimicamente de forma espontânea. Essa união recria a estrutura original e estabilizada que a laminina possui dentro do nosso corpo, algo que normalmente se perde durante a extração laboratorial padrão.
Lesões medulares
Quando ocorre uma lesão na medula espinhal, a comunicação entre o cérebro e o corpo é interrompida, resultando em perda de funções motoras e sensoriais. A regeneração natural é severamente limitada por três fatores principais:
- Inflamação agressiva: Células de defesa infiltram o local, secretando substâncias que agravam a morte celular.
- Cicatrizes físicas: Astrócitos e fibroblastos migram para a área lesionada, formando um tecido cicatricial impenetrável.
- Baixa resposta regenerativa: O sistema nervoso central (SNC) de mamíferos adultos não produz laminina espontânea em quantidade suficiente para promover a cura, e resíduos de mielina inibem o crescimento de novos axônios.
Como a polilaminina atua no organismo
Enquanto injeções de laminina comum se mostraram ineficazes, a aplicação exógena de polilaminina consegue mimetizar e potencializar os efeitos regenerativos do corpo.
Aplicada através de injeção diretamente na área lesionada da medula espinhal, a polilaminina atua de duas formas cruciais:
- Neuroproteção: Inibe o processo inflamatório que ocorre imediatamente após a lesão, protegendo as células sobreviventes.
- Crescimento axonal: Funciona como um suporte estrutural altamente organizado, permitindo que as fibras nervosas voltem a crescer, ultrapassem a cicatriz e se reconectem.
Resultados promissores: dos laboratórios aos pacientes
O desenvolvimento da polilaminina é fruto de 25 anos de pesquisa liderada pela professora Tatiana Coelho de Sampaio, chefe do Laboratório de Biologia da Matriz Extracelular do Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ.
A eficácia do polímero foi validada em diversas etapas:
- Modelos animais: Estudos mostraram regeneração e recuperação funcional em camundongos (2010), além de retomada total da marcha em cães com lesão crônica na medula espinhal. Também se mostrou eficaz em lesões extensas de nervos periféricos.
- Estudo clínico piloto em humanos: Em um estudo preliminar, seis pacientes paralisados (paraplégicos ou tetraplégicos) receberam injeções de polilaminina (concentração de 100 µg/ml) divididas em duas doses próximas à lesão. Todos os que completaram o tratamento recuperaram parcial ou totalmente os movimentos motores.
Exemplos de superação: Casos como o de Bruno Drummond, que se recuperou completamente cinco meses após receber a aplicação 24 horas após um acidente que o deixou tetraplégico, e Hawanna Cruz, atleta paralímpica que recuperou até 70% do controle de tronco recebendo o tratamento três anos após a lesão.
Status atual e disponibilidade
Apesar dos resultados animadores e de não apresentar efeitos colaterais adversos observados até o momento, é fundamental ter cautela científica. O estudo piloto não possui grupo de controle, o que significa que mais testes rigorosos são necessários.
Onde encontrar a Polilaminina hoje? Atualmente, a polilaminina não está disponível para compra ou uso clínico geral. Ela é estritamente uma medicação experimental.
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou o avanço para estudos clínicos de Fase 1. Nesta nova etapa rigorosa, pesquisadores avaliarão a segurança da aplicação em pacientes com lesões agudas (ocorridas há menos de 72 horas) e que já possuam indicação para cirurgia na coluna.
O nível de recuperação dos pacientes também tem se mostrado dependente do tempo decorrido desde a lesão (quanto mais rápido o tratamento, melhores as chances) e do comprometimento contínuo com a reabilitação pós-operatória.
Fontes: Saber Atualizado; Tua Saúde; Cells, 2022, 11(24), 3955;https://doi.org/10.3390/cells11243955








