
Beija-flores e abelhas desempenham papel crucial na polinização das canelas-de-ema (Vellozia), plantas típicas das áreas de campos rupestres no Cerrado.
Conforme divulgado por artigo na revista Annals of Botany, a presença de polinizadores assegura a produção de sementes viáveis e a manutenção da diversidade genética, mesmo em espécies capazes de autofecundação.
Os pesquisadores estudaram 13 espécies de canela-de-ema (arbustos do Cerrado) que coexistem nos campos rupestres da Serra do Cipó (MG), uma região de alta diversidade vegetal.
O gênero Vellozia compreende aproximadamente 265 espécies, distribuídas principalmente em áreas montanhosas do Brasil, sendo uma das principais representações dessa vegetação. As flores das canelas-de-ema são geralmente grandes, vistosas e variam do branco ao roxo intenso.
Polinização cruzada
Essas plantas apresentam mecanismos evolutivos que favorecem a polinização cruzada, na qual o pólen é transferido por animais de uma planta para outra da mesma espécie.
Esse processo promove a troca de material genético, aumentando a variabilidade, o que contribui para a resistência a doenças e adaptações às mudanças ambientais.
Metodologia
Durante dois anos, os cientistas acompanharam populações de Vellozia, analisando aspectos como a floração, morfologia floral, sistemas reprodutivos e a contribuição dos polinizadores na formação de frutos e sementes.
Foram realizados testes controlados: flores polinizadas manualmente, flores abertas ao público e flores isoladas com saquinhos que impediam o acesso de animais.
Após, foi avaliada a quantidade de sementes produzidas e sua capacidade de germinação em laboratório. Câmeras com sensores de movimento foram usadas para identificar os visitantes das flores.
Animais mais frequentes na visita às flores
Os principais polinizadores identificados foram os beija-flores, especialmente Colibri serrirostris e Chlorostilbon lucidus, além de abelhas sem ferrão do grupo Meliponini (Trigona) e a abelha africanizada (Apis mellifera).

A análise revelou dois padrões principais de floração: algumas espécies concentram a produção de flores na época das chuvas (outubro a fevereiro), enquanto outras apresentam uma floração mais dispersa ao longo dos meses secos.
Em alguns casos, a floração foi estimulada por incêndios. Espécies como Vellozia alata e Vellozia caruncularis floresceram poucas semanas após queimadas, indicando adaptação ao fogo natural do Cerrado.
Os testes de reprodução mostraram que muitas espécies podem produzir frutos por autofecundação na ausência de polinizadores, mas essa é uma estratégia secundária. Na prática, a reprodução bem-sucedida depende da presença de animais polinizadores; em sete das 11 espécies estudadas, não houve produção de frutos quando os visitantes foram impedidos.
Quando a autofecundação ocorreu, as sementes apresentaram baixa qualidade ou não germinaram. Isso indica que a contagem de frutos sozinha pode não refletir o sucesso reprodutivo real das plantas.
A conclusão é que a ausência de polinizadores compromete a reprodução das canelas-de-ema a longo prazo, podendo afetar a diversidade genética e a adaptação ao ambiente.
Ecossistema ameaçado
Os campos rupestres são essenciais para a conservação do Cerrado, fornecendo recursos hídricos e serviços ecossistêmicos, como purificação de água, regulação do clima local e atrativos turísticos.
Por estarem em áreas de altitude, essas plantas são altamente vulneráveis ao aquecimento global. Além disso, enfrentam ameaças como mineração, mudanças no uso do solo e turismo desordenado.
O gênero Vellozia é considerado vulnerável às mudanças climáticas, incluindo espécies como V. alata, V. albiflora, V. glabra e V. patens. Muitas dessas espécies são endêmicas ou possuem distribuição restrita, o que aumenta sua vulnerabilidade.
Destaca-se a preocupação com V. taxifolia, que apresenta baixa capacidade de reprodução autônoma, e V. patens, com produção reduzida de frutos e sementes em condições naturais.
O estudo reforça a importância de políticas de conservação que considerem a relação entre plantas e polinizadores, essenciais para a manutenção da biodiversidade do Cerrado.
Fonte: Agência Fapesp








