
A dispersão de sementes por vento, água ou animais é fundamental para a regeneração de florestas e a manutenção da biodiversidade. Na Mata Atlântica, estudos indicam que a quantidade de floresta na paisagem e o volume de chuvas são fatores determinantes para a diversidade e riqueza de sementes dispersas.
A pesquisa demonstra que pequenos fragmentos de mata, quando cercados por áreas verdes, apresentam maior potencial de regeneração em comparação a grandes áreas isoladas, mesmo em contextos de desmatamento.
A dispersão, conhecida como “chuva de sementes”, foi avaliada em 52 fragmentos de Mata Atlântica ao longo do bioma, do Nordeste ao Sul do Brasil. Os resultados foram publicados em maio no Journal of Ecology.
Os fragmentos variaram de pequenas áreas, com cerca de 4 hectares, até extensas áreas contínuas de milhares de hectares. A riqueza de espécies de sementes aumentou com a cobertura florestal e a precipitação, independentemente do tamanho do fragmento.
De acordo com o autor principal, Luís Felipe Daibes, a cobertura florestal é uma métrica essencial para avaliar a composição da paisagem, influenciando significativamente os parâmetros da dispersão de sementes em florestas tropicais.
O entendimento dos padrões de dispersão de sementes na paisagem pode orientar estratégias de conservação, priorizando ecossistemas mais conectados. Além disso, os dados auxiliam na previsão do funcionamento de comunidades de espécies diante de cenários de perda de biodiversidade e mudanças climáticas.
Áreas remanescentes
Atualmente, cerca de 23% a 24% da cobertura original da Mata Atlântica permanece, na maior parte composta por fragmentos pequenos e isolados. A pesquisa mostra que a contribuição desses fragmentos para a biodiversidade aumenta com maior cobertura florestal ao redor e maior precipitação, independentemente do tamanho do fragmento.
O estudo revela que áreas altamente fragmentadas podem produzir maior quantidade de sementes, embora predominem espécies generalistas adaptadas a ambientes fragmentados, com sementes pequenas.
As informações foram coletadas de diversos estudos acadêmicos realizados entre 1987 e 2021, envolvendo mais de 60 autores de diferentes instituições.
O banco de dados analisado inclui 1.905 recipientes coletores de sementes em 52 fragmentos de Mata Atlântica, totalizando a coleta de 1,3 milhão de sementes e a identificação de 1.029 grupos de plantas, pelo menos quanto à família botânica.
Coletores de sementes, que podem ser peneiras ou redes suspensas, são colocados no sub-bosque para coletar folhas, frutos e sementes, permitindo avaliar a quantidade e diversidade de sementes dispersas em cada local.
Devido às dificuldades logísticas, esses estudos geralmente abrangem um único local por período de um ano. Os coletores são colocados no sub-bosque, e as sementes coletadas mensalmente são identificadas pelos pesquisadores.
Este estudo representa uma análise abrangente do bioma, do Nordeste ao Sul, conferindo maior robustez aos resultados.
Dispersão por animais
Sementes podem ser dispersadas por animais (zoocóricas), vento, rios ou por queda natural. Áreas com maior pluviosidade tendem a apresentar maior quantidade de sementes zoocóricas, que são provenientes de árvores com frutos atrativos para aves e mamíferos, facilitando sua dispersão para além da árvore-mãe e entre fragmentos.
O desmatamento resulta na perda de espécies com sementes de maior tamanho, pois animais de grande porte, que consomem frutos maiores, são os primeiros a serem extintos localmente devido à perda de hábitat.
A análise da chuva de sementes indica que fragmentos com baixa cobertura florestal, especialmente em regiões secas, tendem a ser dominados por espécies pioneiras de crescimento rápido e dispersão independente da fauna.
As espécies pioneiras desempenham papel importante na regeneração, fornecendo sombra para espécies de crescimento mais lento. Contudo, um ecossistema funcional requer uma diversidade maior de espécies, incluindo aquelas que dependem da dispersão por fauna.
O histórico de desmatamento e fragmentação altera o padrão de dispersão de sementes. Fragmentos cercados por monoculturas, como cana-de-açúcar, tendem a ser dominados por poucas espécies generalistas, com pouca troca de sementes entre eles.
Para conservar um fragmento isolado, é importante que haja cobertura florestal na região. A presença de múltiplos fragmentos em um raio de cinco quilômetros, com mais de 60% de cobertura, aumenta a troca de sementes e a diversidade.
A priorização de áreas de reserva legal deve considerar a cobertura florestal e a conectividade entre os fragmentos, favorecendo a manutenção da dispersão de sementes e a biodiversidade.
Fonte: Agência Fapesp








