
Embora o monstro-de-gila seja frequentemente citado como fonte direta de substâncias usadas na fabricação de medicamentos como Ozempic e Wegovy, a conexão é mais indireta do que muitos imaginam. A molécula descoberta na saliva do lagarto, a exendina-4, foi fundamental para o desenvolvimento inicial dessa classe de tratamentos, mas os produtos atuais utilizam versões sintéticas produzidas em laboratórios e livres de qualquer material do animal.
Origem do hormônio que regula o açúcar e a saciedade

Desde então, a tentativa era transformar esse hormônio natural em um medicamento eficaz. O desafio principal residia na sua rápida degradação, que tornava sua aplicação inviável para tratamentos contínuos.
O obstáculo do curto tempo de ação

Esse curto tempo de ação, de cerca de um a dois minutos, inviabilizava a aplicação contínua do medicamento, levando os pesquisadores a buscar alternativas que prolongassem sua eficácia.
A descoberta do lagarto
A solução veio de um animal que vive longe de laboratórios e que possui uma molécula com potencial para prolongar a ação do hormônio. O monstro-de-gila, conhecido por sua mordida lenta e peçonha, possui uma substância na saliva com estrutura semelhante ao GLP-1.
Essa molécula, a exendina-4, apresenta resistência à degradação, permitindo que o efeito do hormônio perdure por muito mais tempo no organismo. Assim, ela se tornou uma peça-chave para o desenvolvimento de medicamentos mais duradouros.
O estudo do lagarto e a sua importância
Para investigar a molécula, foi necessário obter um exemplar do monstro-de-gila. O professor Bob Murphy, do Departamento de Ecologia e Biologia Evolutiva da Universidade de Toronto, foi responsável por essa coleta, que foi feita de forma cuidadosa e com transporte aéreo até o Canadá.
Na década de 1990, a tecnologia de clonagem e bancos de genes ainda eram limitadas, o que dificultava a pesquisa. Segundo Daniel Drucker, na época, era preciso realizar procedimentos complexos para estudar a molécula, o que atrasou o progresso.
Da molécula ao primeiro medicamento aprovado
Após anos de pesquisa, a molécula do lagarto deu origem à exenatida, o primeiro medicamento dessa classe a ser aprovado. Comercializado sob o nome de Byetta, o remédio foi autorizado em 2005, mais de uma década após a descoberta da exendina-4.
Mesmo na primeira geração, o medicamento já não continha qualquer material do animal. A exenatida é uma versão sintética, produzida em laboratório, que replica a ação da molécula original.
A origem real dos medicamentos atuais
Embora muitos associem os remédios atuais à molécula do lagarto, a verdade é que eles derivam de uma estrutura diferente. A semaglutida, por exemplo, é baseada no GLP-1 humano modificado, não na exendina-4.
A contribuição real do monstro-de-gila
O papel do monstro-de-gila foi fornecer a prova de que uma molécula semelhante ao GLP-1 poderia resistir por mais tempo no organismo. Essa descoberta abriu caminho para pesquisas que modificaram o próprio hormônio humano, tornando os tratamentos mais eficazes.
Ao mostrar que a degradação rápida podia ser superada, o animal ajudou a definir o rumo da pesquisa, que evoluiu de tentativas de replicar a molécula do lagarto para a de modificar o próprio hormônio humano.
A evolução do tempo de permanência no corpo
O avanço na duração da ação dos medicamentos é evidente. O GLP-1 natural dura apenas um a dois minutos, enquanto a exenatida chega a cerca de 2,4 horas.
As versões seguintes, como a liraglutida e a semaglutida, elevaram esse período para aproximadamente uma semana, permitindo aplicações semanais e maior praticidade para os pacientes.
Por que a desinformação sobre o lagarto persiste
O motivo da propagação de informações falsas está na combinação de um fato verdadeiro com uma conclusão equivocada. A molécula do lagarto foi crucial para o avanço, mas os medicamentos atuais não descendem dela.
Essa desinformação pode prejudicar a adesão ao tratamento, pois vídeos e comentários que reforçam a ideia de veneno podem criar dúvidas naqueles que dependem da medicação sob prescrição médica.
Reconhecimento internacional da pesquisa
As descobertas relacionadas ao GLP-1 e seus derivados receberam reconhecimento internacional. Em 2024, cinco cientistas foram agraciados com o Prêmio Princesa das Astúrias de Pesquisa Científica e Técnica, um dos mais prestigiosos do mundo ibero-americano.
Entre os premiados estão nomes de diferentes instituições, incluindo Daniel Drucker, Jens Juul Holst, Joel Habener, Svetlana Mojsov e Jeffrey Friedman, que contribuíram para estabelecer as bases de tratamentos inovadores contra diabetes tipo 2 e obesidade.
Pesquisas atuais e novos horizontes
O estudo do GLP-1 não se limita ao emagrecimento. Pesquisadores investigam seu potencial em tratamentos para Alzheimer, doenças cardiovasculares e dependência química, demonstrando a abrangência do hormônio.
O desenvolvimento de novas aplicações é resultado de uma rede global de cientistas que colaboram continuamente. Segundo Ehud Ur, da Universidade de Columbia Britânica, a origem geográfica é secundária diante da troca de informações entre grupos de pesquisa.
Segurança e realidade dos medicamentos atuais
De acordo com evidências científicas, nenhuma das canetas em uso contém veneno ou saliva do monstro-de-gila. Todos os medicamentos são fabricados em laboratórios, com versões sintéticas que replicam a molécula original.

Por fim, é importante destacar que esses medicamentos são de prescrição, indicados para condições específicas, e seu uso deve ser acompanhado por profissionais de saúde, devido às variações na resposta individual.
Você já tinha ouvido a história do lagarto?
O desenvolvimento de medicamentos que atuam na regulação do açúcar e no controle do peso envolve décadas de pesquisa. A molécula do lagarto foi uma peça importante nesse processo, mas os remédios atuais não carregam veneno algum do animal.
Você já viu vídeos que afirmam que o remédio é feito de veneno de lagarto? É comum a circulação de informações incorretas, alimentadas por opiniões na internet. A ciência comprova que os medicamentos atuais são seguros e produzidos em laboratório.
Fonte: Click Petroleo e Gas.








