
Pesquisadores da Embrapa identificaram bactérias capazes de fixar nitrogênio em plantas de algodão. Essa descoberta pode contribuir para o desenvolvimento de bioinsumos que substituam parcialmente o uso de fertilizantes químicos, beneficiando a produção de algodão e outras culturas.
As bactérias, denominadas diazotróficas, têm a capacidade de converter o nitrogênio atmosférico em formas utilizáveis pelas plantas. Elas foram isoladas em raízes de algodão arbóreo.
Embora a fixação biológica de nitrogênio (FBN) seja consolidada em leguminosas como a soja, essa prática ainda não é viável para culturas como o algodão.
A soja possui uma relação simbiótica com essas bactérias por meio de nódulos nas raízes, o que possibilita a inoculação de bactérias no algodão para potencialmente substituir fertilizantes nitrogenados, especialmente em sistemas de agricultura orgânica”, explica a pesquisadora da Embrapa Algodão (PB) Lúcia Hoffmann.
Lúcia Hoffmann atua há 24 anos no mapeamento e catalogação de espécies arbóreas no Brasil.
São três espécies relacionadas ao algodão cultivado:
- O algodão nativo brasileiro (Gossypium mustelinum), silvestre, encontrado em áreas de preservação na Paraíba, Pernambuco e em matas ciliares na Bahia.
- O algodão mocó, cultivado comercialmente até a década de 1980 na região semiárida.
- O algodão ancestral, Gossypium barbadense, cultivado em quintais e jardins em todo o Brasil, frequentemente para uso medicinal, ornamental ou na produção de artesanato por comunidades tradicionais.
Segundo a pesquisadora, todos esses algodoeiros arbóreos possuem raízes profundas que contribuem para a conservação do solo, além de estabelecerem associações com fungos e bactérias que auxiliam na absorção de água e nutrientes.
Inoculação de bactérias
A pesquisa iniciou com o isolamento, em laboratório, de bactérias diazotróficas presentes nas raízes do algodão arbóreo, conhecido também como algodão ancestral ou de quintal, Gossypium barbadense.
Essas bactérias foram inoculadas em plantas de algodão herbáceo, cultivadas comercialmente em grande escala. Nos testes iniciais, as plantas tratadas apresentaram desempenho semelhante às que receberam fertilizante nitrogenado recomendado para o cultivo no Cerrado.
O experimento foi realizado em 2025, no Núcleo Regional do Algodão no Cerrado, na Embrapa Arroz e Feijão (GO). As plantas foram cultivadas em vasos em ambiente controlado.
As plantas que receberam apenas as bactérias, sem adubação nitrogenada, tiveram desenvolvimento similar às plantas adubadas, indicando potencial para uso como bioinsumos, reduzindo a necessidade de fertilizantes convencionais”, explica a pesquisadora.
A próxima etapa envolve aprofundar estudos para identificar novas estirpes de bactérias diazotróficas que possam integrar futuros bioinsumos para o algodão e outras culturas agrícolas”, afirma a pesquisadora Marcia Soares Vidal, que trabalha com Lúcia Hoffmann em projeto de isolamento e caracterização de novas bactérias.
De acordo com as pesquisadoras, a nutrição mineral é um dos principais custos na produção de algodão, sendo o nitrogênio um dos nutrientes mais perdidos durante o processo de adubação.
Perdas por volatilização, denitrificação ou lixiviação, causadas por chuvas ou alagamentos, dificultam a eficiência da aplicação de nitrogênio, mesmo nas doses recomendadas.
Impactos econômicos e ambientais
A substituição parcial de fertilizantes químicos por fixação biológica pode reduzir custos de produção e diminuir impactos ambientais, como a emissão de óxido nitroso, um importante gás de efeito estufa.
A emissão de óxido nitroso pode ser minimizada com a redução do uso de fertilizantes nitrogenados, sejam eles químicos ou orgânicos, já que esse gás é uma das principais fontes de gases de efeito estufa provenientes do solo agrícola”, destacam.
A pesquisa também visa diminuir a dependência do Brasil de fertilizantes nitrogenados importados, que atualmente representam 95% do consumo nacional, tornando a produção agrícola mais autônoma.
Algumas bactérias diazotróficas podem oferecer benefícios adicionais além da fixação de nitrogênio.
Esses microrganismos, que estabelecem relações mutualísticas com as plantas, podem promover o crescimento vegetal por meio da síntese de fitormônios, absorção de nutrientes, controle de patógenos, resistência a pragas, indução de resistência e mitigação de estresse hídrico”, afirmam.
Com essas características, a Embrapa tem realizado estudos para desenvolver bioinsumos que aumentem a produtividade das plantas em condições climáticas adversas.
Fonte: Embrapa











