
Durante décadas, os jumentos desempenharam papel fundamental na resistência do campo brasileiro, especialmente na região Nordeste, onde eram essenciais para transporte e atividades diárias de famílias rurais. Com o avanço da mecanização e a substituição por veículos motorizados, muitos desses animais passaram a ser abandonados, causando problemas sociais, logísticos e sanitários. Nesse cenário, o mercado de abate e exportação surge como uma alternativa econômica viável, além de ser tema de intenso debate dentro do setor agropecuário.
Contrariando análises superficiais, o debate atual se apoia em dados concretos, estudos acadêmicos e informações de mercado internacional que demonstram que o jumento faz parte de uma cadeia global avaliada em bilhões de dólares.
Esse contexto gerou uma cadeia controversa, mas de grande potencial econômico: o mercado de abate e exportação de jumentos, que redefine o animal como um ativo dentro de uma cadeia internacional altamente lucrativa. A lógica é clara: quando há demanda, há incentivo para produção; na ausência de valor econômico, o abandono tende a aumentar.
O rebanho brasileiro de jumentos como um ativo de peso
Dados recentes da World Population Review indicam que o Brasil possui mais de 730 mil jumentos em 2026, colocando o país entre os maiores detentores dessa espécie no mundo. Essa estimativa é fundamentada em projeções feitas por instituições internacionais, que utilizam metodologias reconhecidas para análise demográfica.
Essa quantidade altera a percepção de que o jumento seria um animal residual, reforçando sua importância como um recurso biológico relevante para o mercado nacional.
O mercado global impulsiona a cadeia de valor dos jumentos
O crescimento dessa cadeia é fortemente impulsionado na Ásia, especialmente na China, onde a produção do ejiao, um derivado do colágeno da pele do animal, alimenta a indústria de medicina tradicional e suplementos alimentares.
Dados da Reuters revelam que:
- A demanda global por peles de jumento atinge aproximadamente 5,9 milhões de unidades por ano
- A população de jumentos na China caiu mais de 80% nas últimas décadas
- O valor do ejiao aumentou cerca de 30 vezes na última década
- Empresas do setor registram lucros anuais superiores a 1 bilhão de yuans
Ou seja, a equação é clara: alta demanda combinada com escassez de matéria-prima gera uma pressão internacional por novos fornecedores.
É nesse cenário que o Brasil pode atuar, explorando seu potencial de produção.
Potencial do mercado brasileiro: números, receitas e perspectivas
Apesar de limitações regulatórias e operacionais, o Brasil já apresenta resultados relevantes. Em períodos de maior atividade, frigoríficos autorizados exportaram mais de 25 mil toneladas de produtos derivados de asininos, gerando cerca de US$ 40 milhões em receita.
Os números demonstram o interesse do setor:
- Receita média de aproximadamente R$ 370 por animal abatido
- Potencial de atingir até R$ 870 por animal com exportação direta para a China
Ou seja, há uma oportunidade financeira evidente, que se amplia à medida que a cadeia se aproxima do mercado consumidor final.
Dados oficiais da Advocacia-Geral da União (AGU) reforçam que:
- Há centenas de empregos diretos e indiretos no setor
- Produtores rurais atuam como fornecedores de animais
- Frigoríficos com inspeção federal (SIF) operam na cadeia
Essa estruturação demonstra que o mercado já opera dentro de parâmetros sanitários e comerciais reconhecidos oficialmente, afastando a ideia de informalidade.
A importância de um mercado estruturado para o desenvolvimento do setor
A lógica econômica é simples: nenhuma espécie é criada em larga escala sem que haja retorno financeiro. Sem valor de mercado, não há incentivo para investimento, planejamento ou expansão do rebanho.
Estudos da Universidade de São Paulo (USP) indicam que o Brasil ainda não possui uma cadeia de criação de jumentos consolidada. A maior parte da oferta atual é composta por animais soltos ou recolhidos, o que limita a possibilidade de crescimento e produção mais estruturada.
Outro fator relevante é a reprodução lenta dos jumentos, que gestam por cerca de 12 meses, dificultando reposições rápidas. No entanto, o principal obstáculo apontado pelos especialistas é a ausência de uma demanda econômica consistente, que inibe a reprodução planejada e impede a formação de uma cadeia produtiva estável no país.
Transformando o animal de extrativista em atividade agrícola estruturada
Hoje, o Brasil ainda mantém um modelo predominantemente extrativista, recolhendo animais existentes na natureza. Contudo, especialistas defendem que a abertura de mercado pode impulsionar uma nova cadeia produtiva, com foco em:
- Programas de reprodução e melhoramento genético
- Rastreabilidade e controle sanitário
- Integração produtiva semelhante ao modelo do bovino
Na prática, essa mudança poderia transformar o jumento em uma nova fronteira do agronegócio, especialmente em regiões com baixa mecanização e pouca alternativa de renda.

Embora o couro seja o principal motor econômico, a cadeia de produtos derivados de jumentos vai além desse item. Há potencial para ampliar a produção de carne e explorar subprodutos industriais, promovendo um aproveitamento integral do animal.
Exportações de carne já ocorreram para mercados asiáticos, e a industrialização de subprodutos amplia as possibilidades de receita, seguindo práticas de eficiência e sustentabilidade adotadas em outras cadeias do agronegócio.
Esse modelo de aproveitamento integral é uma estratégia consolidada em setores do agro que buscam maximizar valor, reduzir desperdícios e aumentar a rentabilidade.
O paradoxo do abandono versus valorização do jumento
O Brasil enfrenta um paradoxo evidente: por um lado, há muitos animais abandonados, vítimas de acidentes em rodovias e de falta de políticas de manejo adequadas; por outro, um mercado internacional bilionário demanda por peles, carne e subprodutos, com potencial de gerar renda e valor para o setor.
Nesse cenário, o maior risco para o animal não é apenas o abate, mas a ausência de valor econômico que o torne relevante para o sistema produtivo.
Sem mercado, o animal tende a desaparecer lentamente, enquanto com valor e manejo adequados, pode ser criado, manejado e integrado ao sistema agropecuário.
- Animais abandonados e vítimas de acidentes
- Falta de políticas de manejo e controle
- Risco de extinção do ativo biológico
Por outro lado, a demanda internacional crescente oferece uma oportunidade de transformar o jumento em um ativo de valor, promovendo sua criação e manejo sustentáveis.
- Mercado externo que paga bem
- Demanda crescente por peles e carne
- Potencial de geração de renda em regiões vulneráveis
Nesse cenário, o grande desafio do Brasil é estruturar uma cadeia produtiva que capture valor e evite o desaparecimento do animal por falta de mercado.
Se o animal for criado e manejado com estratégia, pode se tornar uma nova fronteira do setor agropecuário, especialmente em áreas de baixa mecanização.
O que está em jogo para o Brasil
O debate sobre o abate de jumentos deixou de ser apenas uma questão emocional ou ideológica. Agora, envolve aspectos de comércio exterior, cadeias produtivas emergentes, valorização de ativos rurais e geração de renda em regiões vulneráveis.
Os dados comprovam que o mercado existe, oferece boas remunerações e apresenta demanda crescente, colocando o Brasil diante de uma decisão estratégica: estruturar essa cadeia para capturar valor ou abrir mão de uma oportunidade global bilionária.
Essa é uma oportunidade de transformar um animal tradicionalmente considerado residual em um ativo econômico sustentável e rentável, capaz de gerar renda e valor para o setor agro nacional.
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Fonte: Compre Rural.








