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Tecnologias do Cerrado podem impulsionar a agricultura nas savanas africanas

Com grande potencial de terras não exploradas, a África busca adaptar inovações brasileiras para enfrentar a fome, gerar empregos e promover a segurança alimentar, enquanto enfrenta os efeitos das mudanças climáticas.

Foto: Embrapa / Juliana Miura.
Foto: Embrapa / Juliana Miura.

Com 60% das terras agricultáveis ainda não exploradas do mundo, o continente africano busca adaptar tecnologias desenvolvidas no Cerrado para enfrentar a fome, gerar empregos e fortalecer a segurança alimentar, ampliando a oferta global de alimentos. A transformação do Cerrado em uma das principais regiões agrícolas do mundo pode servir de modelo para o desenvolvimento sustentável das savanas africanas, segundo Abdukrazak Ibrahim, coordenador do Fórum para Pesquisa Agrícola na África (Fara).

“Temos dois biomas semelhantes. A ciência transformou um — o Cerrado brasileiro — e pode transformar o outro — a Savana africana”, afirmou Ibrahim. Segundo o pesquisador, a África concentra cerca de 60% das terras aráveis ainda não cultivadas no planeta e tem potencial para liderar uma nova revolução agrícola global. A discussão ocorreu durante o painel Meio Ambiente e Mudanças Climáticas, realizado no X Simpósio Nacional Cerrado e III Simpósio Internacional Savanas Tropicais, promovido pela Embrapa Cerrados.

O especialista destacou que o objetivo não é reproduzir exatamente a experiência brasileira, mas adaptar as tecnologias às diferentes realidades do continente. “Precisamos construir soluções específicas para a diversidade africana, sem simplesmente copiar o Brasil”, explicou Ibrahim.

Ele lembrou que o avanço agrícola brasileiro foi resultado de cinco décadas de investimentos em ciência e inovação. Para a África, o desafio é mais urgente, já que a Organização das Nações Unidas projeta uma população de aproximadamente 2,5 bilhões de habitantes no continente até 2050. Atualmente, os países africanos importam cerca de US$ 100 bilhões anuais em alimentos.

Por outro lado, Ibrahim enxerga um cenário promissor: a África possui cerca de 600 milhões de hectares de terras aptas à agricultura, uma população predominantemente jovem e grande potencial para elevar a produtividade. “Isso pode gerar milhões de novos empregos”, ressaltou.

Ele também destacou a importância da cooperação Sul-Sul e do intercâmbio de conhecimentos com o Brasil. Segundo Ibrahim, a experiência da Embrapa, especialmente no desenvolvimento de tecnologias para ambientes tropicais, pode acelerar a modernização agrícola no continente africano.

Entre as ações estratégicas, a formação de recursos humanos é considerada fundamental. Mais de 3 mil profissionais e estudantes de 20 países africanos já participaram de treinamentos no Brasil. Ibrahim, que foi bolsista na Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, reforça que é possível tirar os países africanos da fome com a adoção de tecnologias e conhecimentos que o Brasil já desenvolveu.

O coordenador da Fara aponta que o fortalecimento da pesquisa, o investimento público de longo prazo, a melhora genética de espécies, a mecanização e as inovações tecnológicas são essenciais para ampliar a produção de alimentos. Ele citou exemplos recentes de avanços na Etiópia, Nigéria, Gana, Quênia e Ruanda, que incluem autossuficiência em trigo, aumento na produção de mandioca, ganhos de produtividade do milho, plataformas digitais e sistemas de gestão de terras.

Apesar dos progressos, há espaço para crescimento. A produtividade média do milho na África é de 2,2 toneladas por hectare, enquanto produtores mais avançados alcançam entre 10 e 12 toneladas, indicando potencial de aumento significativo.

Para Ibrahim, a parceria entre Brasil e África pode ser decisiva na luta contra a insegurança alimentar global. “A África tem muito a aprender com o Brasil, assim como o Brasil pode se beneficiar do potencial africano. Juntos, podemos transformar as savanas em um grande polo de produção”, afirmou.

Como as mudanças climáticas afetam a agricultura e a segurança alimentar no Brasil

Enquanto Brasil e África discutem estratégias para ampliar a produção de alimentos nas savanas tropicais, especialistas alertam que o sucesso dessa iniciativa depende de ações para mitigar os efeitos das mudanças climáticas e preservar a biodiversidade. A elevação das temperaturas, a diminuição das chuvas e a degradação dos ecossistemas já impactam a agricultura, elevando custos e ameaçando a segurança alimentar de milhões nas próximas décadas.

Durante debate promovido pela Embrapa Cerrados em 23/10, foi reforçado que o aumento da produção de alimentos no futuro exigirá conservação dos recursos naturais e adaptação do setor agropecuário às mudanças climáticas.

As palestras de Mercedes Bustamante, da Universidade de Brasília, e de Eduardo Assad, da Fundação Getulio Vargas, mostraram que as crises climática e de biodiversidade estão interligadas e já provocam impactos na disponibilidade de água, na produtividade agrícola e na vida de comunidades rurais e urbanas.

Segundo Bustamante, as mudanças no uso do solo e a perda de biodiversidade constituem “crises gêmeas”. Ela alerta que, futuramente, o aquecimento global deve se tornar a principal causa da diminuição da biodiversidade, agravando o quadro.

Ela reforça que o Cerrado, apesar de ocupar cerca de 23% do território nacional, possui papel estratégico na conexão entre a Amazônia, Caatinga, Pantanal e Mata Atlântica. Sua preservação é vital para a regulação climática e hídrica do Brasil.

Estudos mostraram que a conversão do Cerrado para outros usos já provocou aumento de temperatura e redução de umidade na atmosfera. Entre 2006 e 2019, houve uma diminuição de aproximadamente 10% na evapotranspiração e elevação da temperatura na região do Matopiba, que inclui Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia.

Bustamante afirma que a proteção da biodiversidade é uma estratégia essencial para mitigar as mudanças climáticas, pois ecossistemas saudáveis ajudam a regular o clima, armazenar carbono, conservar água e garantir a produção de alimentos.

Eduardo Assad apresentou dados que indicam que os efeitos das mudanças climáticas sobre a agropecuária brasileira deixaram de ser projeções e se tornaram realidade. Entre 2000 e 2024, eventos climáticos extremos causaram perdas de cerca de R$ 300 bilhões na agricultura, alertando para os riscos de um mundo cada vez mais quente e seco.

Mapas climáticos demonstram que regiões do Cerrado enfrentam redução de chuvas, aumento de secas e elevação de temperaturas. Em alguns locais, a estação chuvosa reduziu-se em até 22 dias, prejudicando o abastecimento hídrico das lavouras.

Assad alerta que temperaturas elevadas e escassez de água podem comprometer culturas essenciais, como soja e milho, levando a perdas de produtividade em cenários de aquecimento global.

Para enfrentar esses desafios, especialistas apontam soluções como recuperação de pastagens degradadas, sistemas integrados de produção, manejo sustentável do solo, restauração de áreas e preservação da vegetação nativa. Essas ações podem ampliar a produção de alimentos de forma sustentável.

Assad reforça que o Brasil, sem desmatamento e queimadas, tem potencial para se tornar o maior sumidouro de carbono do planeta. Ele acredita que o país dispõe de conhecimento, tecnologia e recursos naturais para conciliar produção agrícola, conservação ambiental e adaptação às mudanças climáticas.

Quando a preservação do meio ambiente também gera lucro

Experiências já em andamento demonstram que é possível produzir mais sem desmatar. Durante debate, Jonas Oliveira, da Syngenta, apresentou resultados do programa Reverte, que apoia a recuperação de áreas degradadas por meio de crédito, assistência técnica e boas práticas agrícolas, mostrando que sustentabilidade e rentabilidade podem caminhar juntas.

Oliveira ressaltou que a sustentabilidade deixou de ser apenas uma questão ambiental, tornando-se estratégia de negócios. “A perenidade dos negócios rurais depende de práticas sustentáveis, e o produtor já compreende isso”, afirmou.

Desde 2019, o programa reúne parceiros públicos e privados, recuperou mais de 280 mil hectares em aproximadamente 400 propriedades e investiu mais de R$ 2 bilhões em financiamentos para transformar áreas degradadas em sistemas produtivos sustentáveis.

Um exemplo é uma fazenda em Itaúba (MT), que aderiu ao programa em 2021. A propriedade de 4 mil hectares, antes degradada, passou a usar plantas de cobertura, manejo conservacionista do solo e rotação de culturas, passando a produzir soja, milho e algodão de forma competitiva.

Outro caso mostrou aumento na rentabilidade: uma fazenda em Açailândia (MA) viu seu faturamento saltar de cerca de R$ 1 mil para R$ 10 mil por hectare ao ano, mantendo mais de 50% da área com vegetação nativa preservada, além de gerar empregos e promover restauração ambiental. “O programa cria oportunidades de negócio, aumenta produtividade, reduz riscos e valoriza a terra”, destacou Oliveira.

Esses exemplos reforçam que ciência e inovação já oferecem caminhos viáveis para ampliar a produção, recuperar áreas degradadas e conservar recursos naturais, tornando possíveis objetivos de sustentabilidade e rentabilidade no campo.

Fonte: embrapa.br