
A cadeia da pecuária vai além da produção de carne, abrangendo setores industriais que utilizam partes do animal para fabricar produtos como automóveis, móveis, calçados, cosméticos e fertilizantes. A economia circular tem sido adotada como estratégia para reduzir desperdícios e otimizar o uso de recursos.
No complexo industrial da JBS em Lins, São Paulo, peles bovinas são transformadas em couro para diversas aplicações. O processo inicia após o abate, quando as peles são preservadas e enviadas aos curtumes.
De acordo com o Centro das Indústrias de Curtumes do Brasil (CICB), o país produz aproximadamente 40 milhões de peles bovinas anualmente. Parte desse volume é destinada ao mercado interno, enquanto o restante é exportado. O Brasil é o terceiro maior exportador mundial de couros, com destinos em mais de 80 países.
Processo técnico de transformação
O processamento do couro envolve três etapas principais: curtimento, recurtimento e acabamento. O diretor técnico da JBS Couros, Ramon Dela Torres, explica as fases dessa transformação.
Torres destaca que a pele é estabilizada por meio da preservação de sua proteína, evitando sua decomposição. Na etapa de recurtimento, são definidas características como cor, espessura e maciez.
O acabamento confere propriedades específicas ao couro, permitindo sua utilização em produtos como bancos de veículos, móveis e calçados.
De modo análogo à construção de uma casa, o curtimento funciona como a base, o recurtimento como as paredes e o acabamento como os detalhes finais. Uma base mal feita compromete toda a estrutura.
Origem do material
A indústria recebe as peles diretamente dos frigoríficos, cuja concentração é maior na região central do Brasil, onde há maior número de unidades frigoríficas.
Após o abate, as peles, que são materiais orgânicos, passam por um processo de preservação até chegarem ao curtume. Segundo Torres, as peles chegam ao processamento ainda in natura.
Importância
Segundo Cesar Gernhardt, diretor comercial da JBS Couros, o couro produzido na unidade de Lins é destinado principalmente à indústria automotiva.
O couro é produzido até o estágio de semiacabado na unidade de Lins, sendo posteriormente enviado a países como Hungria, China e Tailândia, onde passa pelo acabamento final e é transformado em componentes para bancos automotivos.
Apesar de avanços em outras matérias-primas, o couro continua sendo um dos revestimentos mais utilizados em bancos de veículos, móveis, calçados e bolsas, devido às suas propriedades.
Aproveitamento antes da indústria
A qualidade do couro também depende das condições de criação do animal, além do processo industrial.
Parasitas e outros fatores podem causar marcas na pele, comprometendo a qualidade da “flor”, a parte mais nobre do couro. Quanto maior a quantidade de defeitos, maior a necessidade de lixamento e aplicação de produtos para disfarçar imperfeições.
Esse procedimento pode reduzir a aparência natural do couro e seu valor de mercado. Práticas de manejo e bem-estar animal contribuem para o aproveitamento integral da matéria-prima.
Para a indústria, peles de melhor qualidade demandam menos intervenções durante o processamento.
Economia circular
Dentro do próprio curtume, outros materiais gerados durante o processamento podem ser reaproveitados, fortalecendo a lógica da economia circular.
O setor de couros exemplifica essa abordagem, aproveitando resíduos do frigorífico e do processamento.
O sebo, por exemplo, pode ser utilizado na fabricação de sabonetes e biodiesel. Aparas de pele são empregadas na produção de colágeno, gelatina e peptídeos para cosméticos e produtos de saúde.
Segundo Sena, mais de 90% do peso da pele recebido por uma fábrica de couro é convertido em algum produto final.
Historicamente, o aproveitamento de resíduos do ajuste de espessura do couro era limitado, gerando sobras sem destinação definida.
Após investimentos e pesquisas, a empresa passou a utilizar esses resíduos na produção de fertilizantes de alto valor agregado, aproveitando os aminoácidos presentes na composição.
Fonte: Planeta Campo.








