Guia de Raças

Certificação de raça Canchim melhora qualidade de cruzamentos e amplia renda de produtores de leite

A raça bovina Canchim recebe o segundo selo Beef on Dairy no Brasil, promovendo cruzamentos mais eficientes e valorizando os bezerros para o mercado de carne, além de oferecer novas possibilidades de renda aos produtores de leite.

Para um touro receber o selo Canchim on Dairy, deve atender a critérios técnicos baseados em avaliações genéticas para garantir o desempenho e a segurança do cruzamento
Para um touro receber o selo Canchim on Dairy, deve atender a critérios técnicos baseados em avaliações genéticas para garantir o desempenho e a segurança do cruzamento – Foto: Juliana Sussai.

A Canchim é a segunda raça a receber o selo Beef on Dairy no Brasil, após a Angus. A certificação identifica touros aptos ao cruzamento com vacas Girolando, assegurando a qualidade dos bezerros para o mercado de carne de alta qualidade. Além de ampliar as opções de comercialização, a iniciativa contribui para a diversificação de renda dos produtores de leite, que podem aproveitar esses animais para obtenção de carne.

A estratégia consiste em utilizar sêmen de touros de corte para produzir animais com maior valor comercial na produção de carne. Segundo a pesquisadora Cintia Righetti Marcondes, da Embrapa Pecuária Sudeste, o selo oferece aos produtores de leite uma oportunidade de aumentar sua receita ao agregar valor aos bezerros, principalmente aos machos e fêmeas excedentes, que geralmente têm baixo valor de mercado em sistemas exclusivamente leiteiros.

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Foto: Reprodução / Embrapa.

De acordo com Cintia Marcondes, o objetivo é oferecer uma alternativa de faturamento adicional, vendendo os bezerros para o mercado de carne. A raça Canchim, considerada terminal, melhora a qualidade da carcaça ao cruzar com vacas mestiças, resultando em animais com maior peso na desmama e no sobreano. Além disso, essa prática promove o bem-estar animal ao evitar o descarte de machos recém-nascidos, que passam a ser recriados para o abate com carne de melhor padrão.

Fernando Cardoso, chefe-geral da Embrapa Pecuária Sul, destaca que o selo reforça a identificação de reprodutores mais indicados para o cruzamento com vacas leiteiras. Esses animais podem ser direcionados às centrais de inseminação e se destacar em leilões específicos para o mercado de genética bovina.

Cristina Ribeiro, presidente da Associação Brasileira de Criadores de Canchim, reforça que o selo representa um marco na consolidação da raça nos sistemas de produção modernos. Ela explica que, embora o cruzamento com raças leiteiras seja comum, a certificação oficial traz segurança, padronização e reconhecimento ao mercado, fortalecendo a integração entre as atividades de produção de leite e carne. Essa iniciativa também apoia o produtor na busca por alternativas mais eficientes e valor agregado aos seus animais.

A pesquisadora da Embrapa ressalta que o Canchim é uma excelente opção para regiões quentes e desafiadoras, como o Centro e o Norte do Brasil, graças à sua pelagem clara e adaptação ao calor. Sua genética possibilita produzir animais com maior rendimento de carcaça e gordura adequada às condições tropicais, transmitindo precocidade e padronização aos descendentes, que podem superar o peso do Nelore em até 15% na desmama.

Essa estratégia também traz benefícios na qualidade do produto final, pois aumenta o rendimento de carcaça e melhora a conformação dos animais, atendendo às demandas de um mercado cada vez mais exigente, como explica Fernando Cardoso.

Processo para obtenção do selo

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Para que um touro seja certificado com o selo Canchim on Dairy, é necessário atender a critérios técnicos baseados em avaliações genéticas, que garantam o desempenho e a segurança do cruzamento. A análise utiliza dados do Programa de Melhoramento de Bovinos de Carne (Promebo), adotando critérios restritivos para classificação. Entre os requisitos, destaca-se o peso ao nascimento, que deve estar entre os 40% melhores, além de ganho de peso do nascimento ao desmame e pós-desmame, conformação, tamanho (frame) e área de olho de lombo, sempre considerando os percentuais superiores de avaliação.

Resumidamente, o touro deve apresentar Diferenças Esperadas na Progênie (DEPs) com alta acurácia, distribuídas em 10 grupos (Decas), para características como peso ao nascer, ganho de peso, conformação, tamanho do animal e rendimento de carcaça.

Peso ao nascer: os animais devem estar nas Decas menores ou iguais a quatro, indicando menor peso ao nascimento e facilitando o parto.

Ganho de peso: os Decas devem ser iguais ou menores a cinco, garantindo potencial de crescimento consistente.

Conformação ao sobreano: os Decas devem estar abaixo ou iguais a três, indicando maior musculosidade.

Tamanho ao sobreano: classificação entre Decas três e cinco, para selecionar animais de porte médio, evitando extremos.

Área de olho de lombo: os animais devem estar nas Decas menores ou iguais a quatro, assegurando bom rendimento de carne e qualidade de cortes nobres.

Simulações do banco de dados do Promebo indicam que diversos machos da raça já atendem a esses critérios para certificação.

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Foto: Reprodução / Embrapa.

Vantagens do selo certificado

O selo garante que os touros certificados tenham avaliação genética positiva, facilitando sua identificação por produtores e centrais de sêmen. Essa chancela ajuda a reduzir riscos de parto difícil, aumenta o valor dos bezerros e contribui para uma produção mais sustentável, com menor impacto ambiental por quilo de carne produzido.

O avanço tecnológico do selo Canchim on Dairy reforça o potencial da raça para o mercado de carne e sêmen, além de oferecer uma alternativa viável para pequenos produtores, que podem adquirir touros em consórcio para aprimorar seu rebanho ao longo do tempo.

Segundo a especialista, a raça Canchim é uma solução eficiente para regiões tropicais, substituindo touros de raças zebuínas tradicionais na produção de bezerros de alta qualidade. Tanto machos quanto fêmeas cruzados têm valor de mercado, especialmente as fêmeas jovens, que depositam gordura na carcaça precocemente, possibilitando abates de alta qualidade.

A iniciativa é resultado da parceria entre Embrapa, a Associação Brasileira de Criadores de Canchim, a Associação Nacional de Criadores Herdbook Collares e o Programa de Melhoramento de Bovinos de Carne (Promebo), fortalecendo o desenvolvimento da raça no Brasil.

Entendendo a classificação de mérito bovino

A classificação por Decas é uma ferramenta que divide os animais em dez grupos iguais, segundo sua avaliação genética, variando de Deca 1 (mais destacado) a Deca 10 (menos valorizado). Essa métrica facilita a seleção de reprodutores com maior potencial de melhoria genética.

A classificação é baseada na Diferença Esperada na Progênie (DEP), permitindo uma avaliação rápida e eficiente do valor genético do animal, agrupando-os em categorias de topo, intermediárias e inferiores.

Deca 1 corresponde aos 10% melhores touros da raça ou grupo avaliado, enquanto Deca 10 indica os 10% com menor valor genético.

Essa classificação auxilia na tomada de decisão de compra e na condução de programas de melhoramento genético, promovendo avanços sustentáveis na produção bovina.

Todos esses critérios reforçam o compromisso do selo Canchim on Dairy com a qualidade, eficiência e sustentabilidade na pecuária brasileira, contribuindo para a evolução do setor.

Imagens: Juliana Sussai (bovinos), Gisele Rosso (pesquisadora) e Divulgação (selo)

Fonte: Foto: Reprodução / Embrapa.