
A Embrapa apresenta nesta terça-feira (24) a plataforma digital Trigo no Brasil, uma ferramenta que consolida informações essenciais sobre toda a cadeia produtiva do cereal, com foco na expansão no território nacional. A plataforma reúne dados dispersos de diferentes órgãos e incorpora análises feitas por profissionais com experiência no setor, oferecendo uma visão abrangente que inclui desde a produção no campo até a exportação, passando por processamento, empregos, custos, preços e infraestrutura.
Dados inéditos sobre irrigação e potencial de crescimento
Entre as novidades, a plataforma traz uma estimativa pioneira sobre a participação de sistemas irrigados e de sequeiro na produção de trigo na região do Brasil Central, área de expansão do cultivo nos últimos anos. Além disso, apresenta cenários que indicam possibilidades de aumento da safra nacional, especialmente no Cerrado, contribuindo para a busca pela autossuficiência no cereal.
Desenvolvida com recursos do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), a ferramenta visa fornecer subsídios para políticas públicas e investimentos privados. Em 2024, o Brasil importou cerca de 7 milhões de toneladas de trigo, permanecendo como um dos poucos grandes países que ainda não atingiram a autossuficiência. No entanto, a produção nacional tem crescido de forma expressiva, refletindo uma redução na dependência externa e um aumento nas exportações, que cresceram mais de 11 vezes entre 2020 e 2025, atingindo mercados na Ásia, África e Oriente Médio.
O projeto é resultado de uma parceria entre a Embrapa Territorial (SP) e a Embrapa Trigo (RS), com apoio de equipes da sede e da Embrapa Solos (RJ). A plataforma integra um esforço de análise que busca entender a dinâmica da cadeia produtiva e identificar oportunidades de expansão do cultivo de trigo em diferentes regiões do Brasil.

Segundo Álvaro Augusto Dossa, analista da Embrapa Trigo, a construção da plataforma envolveu a identificação da localização dos principais agentes do setor, buscando compreender a distribuição geográfica, a quantidade de atores e a evolução dos indicadores ao longo do tempo. Essa abordagem, baseada nos conceitos de Inteligência Territorial Estratégica, permite análises integradas que apoiam ações voltadas à autossuficiência.
Para Dossa, a expansão do cultivo no Cerrado é fundamental para que o Brasil alcance a autossuficiência, mas é necessário considerar também a demanda de regiões como o Nordeste, onde há alto consumo de trigo. A conexão de dados de diferentes regiões é essencial para uma análise completa da cadeia produtiva e do fornecimento de matéria-prima para a indústria.
Evento de lançamento
O lançamento oficial da plataforma será realizado às 9h do dia 24/03, no auditório do Ministério da Agricultura e Pecuária, em Brasília (DF).
Endereço: Esplanada dos Ministérios, Bloco D.
Dados sobre produção de sementes e oferta
Um dos destaques da plataforma é o painel dedicado à produção de sementes, que combina dados disponíveis no site do Mapa com análises feitas por especialistas da Embrapa. Essas informações detalham município, área de cultivo, categoria, espécie e cultivar adotado por cada produtor, além de estimar a disponibilidade de sementes para diferentes usos, considerando a predominância de cultivares novas ou antigas.
Essa análise envolveu curadoria e interpretação por profissionais com amplo conhecimento do setor, permitindo a elaboração de relatórios mais precisos. Como exemplo, a plataforma apresenta dados sobre a oferta de sementes, incluindo sua quantidade e variedade, além de informações sobre a evolução da produção e vendas de produtos derivados do trigo, como biscoitos, massas, pães e farinha, de 2017 a 2024.
Mapeamento dos elos da cadeia
A plataforma também oferece mapas que ilustram a distribuição dos elos da cadeia do trigo no território nacional. Os dados mostram maior concentração de moinhos e produtores de sementes no Sul, mas também presença na região Central e no Nordeste. Nos estados nordestinos, há moinhos no litoral, responsáveis por processar grande parte do trigo importado, enquanto os produtores de sementes estão no Oeste da Bahia, uma das áreas de cultivo de trigo na região do cerrado.
Ao comparar a localização de cooperativas e moinhos com as áreas de cultivo, é possível identificar regiões onde essas estruturas ainda precisam ser ampliadas para suportar a expansão do cultivo. A plataforma também mostra a disponibilidade de armazéns do tipo Granel Sólidos, que poderiam estocar trigo, embora atualmente sejam usados principalmente para soja e milho. Essa limitação reforça a necessidade de estratégias de armazenamento contínuo para equilibrar oferta e demanda ao longo do ano.

Dados do comércio internacional de trigo também estão disponíveis na plataforma. As informações incluem volumes, valores, regiões de origem e destino, além dos principais portos utilizados. Em 2024, o Brasil exportou 2,9 milhões de toneladas, com destaque para o Porto de Rio Grande (RS) e destino principal no Vietnã. As importações, por sua vez, totalizaram 7 milhões de toneladas, principalmente da Argentina, com desembarque majoritário no Porto de Santos.
A ferramenta permite ainda dimensionar a indústria de derivados de trigo, considerando o número de estabelecimentos, empregos e volume de produção nas regiões do país. Mapas detalham a distribuição desses estabelecimentos por microrregião, facilitando análises sobre a densidade de atividades relacionadas ao cereal.
Na seção de Economia da Produção, há dados históricos de despesas, custos e preços pagos pela produção de trigo desde 2002, além de informações sobre seguros agrícolas, contribuindo para análises de sustentabilidade e rentabilidade do setor.
Segundo Hilton Silveira, da Embrapa Territorial, a plataforma preenche uma importante lacuna ao oferecer dados organizados e estimativas que permitem avaliar a capacidade de expansão da cadeia do trigo, além de identificar gargalos e oportunidades de melhorias na produção.
Estudo sobre irrigação e cultivo no Cerrado

A análise inédita na plataforma estima a proporção de área irrigada na região de expansão do trigo, usando dados de rendimento e presença de pivôs centrais. Essa metodologia permite estimativas anuais, superando a periodicidade do Censo Agropecuário, que ocorre a cada dez anos.
Para o período de 2019 a 2022, os números indicam que aproximadamente 315 mil toneladas de trigo foram produzidas em sistema irrigado, gerando cerca de R$ 67 milhões em valor de produção. Ainda predomina a cultura de sequeiro, com produção próxima de 560 mil toneladas anuais. Conhecer essas estimativas auxilia no planejamento de uso de tecnologias e na expansão sustentável do cultivo.
Perspectivas para ampliar a produção de trigo

A plataforma dedica uma seção à estratégia de aumento da produção, com foco na elevação dos rendimentos nas áreas já cultivadas. Um painel interativo mostra as lacunas de rendimento nos estados do Sul, indicando a diferença entre o potencial máximo e a média atual, por microrregião. Essas estimativas ajudam a identificar onde ações de transferência de tecnologia podem ter maior impacto.
Por exemplo, na microrregião de Passo Fundo (RS), estima-se que, entre 2020 e 2022, poderiam ter sido produzidos 837 kg a mais por hectare ao ano. Essa diferença, multiplicada pela área cultivada, resultaria em um aumento de mais de 60 mil toneladas anuais. Somando todas as microrregiões do Sul, o potencial de incremento chega a 1,8 milhão de toneladas, evidenciando o potencial de melhorias tecnológicas.
Além disso, a plataforma apresenta cenários de expansão de áreas de cultivo de trigo, considerando as recomendações do Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc). Projetos indicam a possibilidade de converter áreas de soja e milho de primeira safra ou de milho de segunda safra em lavouras de trigo, potencializando uma expansão de até 4 a 5 milhões de hectares, com base nos dados do triênio 2020-2022.
Demonstração do funcionamento da plataforma
Fonte: embrapa.br








