
O centro do debate envolve o uso de aditivos que melhoram o desempenho dos animais em sistemas de produção intensivos, especialmente em confinamentos de alto grau de energia. Entre esses, a virginiamicina é o principal foco das novas restrições impostas pelo bloco europeu.
De acordo com Dhones Rodrigues de Andrade, doutor em zootecnia e supervisor técnico da Facholi Sementes e Nutrição, o cenário combina questões sanitárias, comerciais e diplomáticas.
“Hoje, há dois fatores altamente relacionados. Um deles é a proibição completa de certos antimicrobianos. O outro é uma rastreabilidade mais rigorosa da carne exportada, para garantir que ela seja isenta desses produtos”, explica.
Segundo o especialista, países concorrentes do Brasil na Europa, como Uruguai, Chile e Argentina, já avançaram em protocolos mais restritivos quanto ao uso desses compostos. Enquanto isso, o Brasil busca alternativas técnicas e negociações diplomáticas para evitar perdas comerciais.
Nos sistemas brasileiros de confinamento, a combinação de monensin com virginiamicina consolidou-se como uma estratégia principal para otimizar a eficiência alimentar, estabilidade ruminal e ganho de peso dos bovinos.
Dhones afirma que esses aditivos desempenham papel central em dietas de alto valor energético, comuns em sistemas de produção intensivos. “Quando trabalhamos com dietas mais desafiadoras, a combinação dos dois melhora a produtividade e oferece maior segurança nutricional”, afirma.
Além de otimizar o aproveitamento energético, os antimicrobianos auxiliam na redução de distúrbios metabólicos e na estabilização do consumo dos animais. “A virginiamicina complementa o efeito da monensina. Essa associação proporciona uma segurança nutricional elevada no confinamento”, acrescenta.
O problema surge com a exigência da União Europeia de comprovar a ausência total desses compostos na produção destinada ao bloco. “Eles querem uma prova definitiva de que não há antimicrobianos na carne. Não basta um limite seguro; a regra exige que o produto seja completamente isento dessas substâncias”, explica Dhones.
Rastreamento como alternativa e seus custos
Diante da pressão europeia, o setor avalia duas estratégias principais: tentar negociar a flexibilização das restrições ou criar uma cadeia de produção segregada, com rastreabilidade rigorosa, para carne “livre de antimicrobianos”.
Na prática, isso envolveria selecionar produtores específicos para atender exclusivamente ao mercado europeu, semelhante ao modelo já utilizado na Cota Hilton. “O Brasil pode precisar desenvolver uma carne com maior valor agregado, uma espécie de ‘bovino livre de antimicrobianos’, com bonificações específicas”, avalia o especialista.
Porém, o principal desafio é o aumento de custos.
Sem o uso de virginiamicina, confinadores precisariam recorrer a alternativas nutricionais mais onerosas e de eficiência ainda menor. Entre essas opções estão óleos essenciais, leveduras e compostos vegetais que promovem melhorias no ambiente ruminal e minimizam perdas energéticas. “Hoje, há produtos no mercado que, em alguns casos, oferecem resultados semelhantes aos antimicrobianos, embora raramente superiores”, explica Dhones.
Além disso, a maior quantidade desses substitutos é necessária para alcançar efeitos semelhantes, elevando o custo da dieta. “A tendência é que os custos aumentem. A questão é se o produtor terá rentabilidade suficiente para cobrir esse incremento”, questiona.

Apesar das incertezas, o setor mantém a expectativa de que o confinamento continuará a expandir no Brasil nos próximos anos.
Atualmente, estima-se que aproximadamente 20% dos bovinos abatidos no país estejam em sistemas de terminação intensiva, uma participação que cresceu consideravelmente na última década.
O avanço na adoção de sistemas de confinamento torna ainda mais sensível qualquer mudança relacionada ao uso de aditivos nutricionais. “O confinamento depende de eficiência. Alterar ferramentas que impactam ganho de peso, saúde ruminal e conversão alimentar influencia diretamente o custo da arroba”, explica.
Pressões internacionais podem transformar a produção brasileira
Nos bastidores, a percepção é de que os debates ultrapassam as questões sanitárias e envolvem uma crescente demanda por rastreabilidade, sustentabilidade e protocolos de produção. Técnicos e produtores veem na retirada dos antimicrobianos uma possível nova barreira de acesso ao mercado europeu.
Enquanto o governo brasileiro busca uma solução diplomática, empresas de nutrição aceleram pesquisas para desenvolver substitutos viáveis economicamente.
O setor já reconhece que qualquer mudança terá impacto direto na porteira.
“Alguma alteração é inevitável. Mas é fundamental que o produtor seja remunerado por produzir carne sem antimicrobianos, com maior controle, rastreabilidade e custos mais elevados. Caso contrário, a equação não fecha”, conclui Dhones.
Não é permitida a reprodução integral do conteúdo acima. A reprodução parcial deve ocorrer apenas mediante citação e link para a fonte original. O plágio é crime previsto na Lei 9610/98.
Fonte: Compre Rural.









