Saúde Animal

Pesquisas indicam que abscessos no fígado podem se desenvolver mais cedo do que se imaginava

Estudos recentes sugerem que as lesões hepáticas, que geram perdas econômicas na produção de carne, podem surgir em fases iniciais da vida dos bovinos, antes mesmo do abate, desafiando conceitos tradicionais.

Foto: Wyatt Bechtel.

Com o aumento da participação de bovinos de corte criados em sistemas de integração com vacas leiteiras nos Estados Unidos, estudos vêm sendo conduzidos para compreender melhor os desafios de saúde enfrentados por esses animais ao longo do ciclo produtivo. Uma das preocupações crescentes é a ocorrência de abscessos hepáticos, uma condição relacionada à diminuição do desempenho, perdas na carcaça e custos econômicos elevados.

Atualmente, há uma compreensão de que o impacto real dos abscessos no fígado pode começar bem antes do momento do abate. Em um recente webinar do Beef on Dairy Dialogue, o professor Kendall Swanson, da Universidade Estadual de Dakota do Norte, apresentou evidências emergentes de que esses abscessos podem elevar os requisitos de manutenção e comprometer a eficiência de crescimento ao longo de toda a fase de engorda, levantando questões sobre o momento de surgimento dessas lesões e seu impacto na performance do gado de corte oriundo de sistema de produção leiteira.

Tradicionalmente, a avaliação de abscessos hepáticos é feita na etapa de abate, quando a condenação de fígados e a retirada de partes da carcaça evidenciam a presença dessas lesões. No entanto, Swanson aponta que essas perdas podem representar apenas uma parcela do impacto. Ao aumentar os requisitos de manutenção e redirecionar energia para processos inflamatórios e reparo de tecidos, os abscessos podem prejudicar o desempenho do animal durante toda a fase de engorda.

O impacto oculto dos abscessos no fígado na eficiência alimentar

Cada caloria consumida por um bovino de confinamento tem um destino específico. Pode ser empregada na manutenção de tecidos e funções biológicas ou direcionada à produção, como crescimento. A manutenção engloba processos como metabolismo de nutrientes, renovação de proteínas, respostas imunológicas e reparo de tecidos. Quanto mais energia o animal precisar gastar na manutenção, menor será a disponibilidade para ganho de peso.

“Se conseguirmos direcionar mais energia para produção e menos para manutenção, podemos melhorar a eficiência energética,” afirma Swanson.

Essa ideia está no centro do debate sobre abscessos hepáticos. Quando essas lesões se formam, o animal precisa dedicar energia à inflamação, às respostas imunológicas e ao reparo de tecidos, em vez de focar no crescimento.

“Energia é consumida para lidar com o tecido abscessado. Assim, o animal precisa gastar mais na manutenção, deixando menos recursos disponíveis para o crescimento,” explica Swanson.

Desafios específicos do fígado em bovinos de produção de corte oriundos de sistema leiteiro

O setor de bovinos de corte criado a partir de vacas leiteiras tem se expandido rapidamente, impulsionado pelo uso de sêmen sexado e programas de inseminação com touros de carne na indústria leiteira. Esses animais apresentam vantagens como maior apetite e potencial de crescimento.

“Vacas leiteiras são criadas para comer, e essa característica é uma grande vantagem”, comenta Swanson.

Esse apetite elevado favorece o desempenho, mas também reforça a necessidade de uma gestão cuidadosa da saúde digestiva.

Em um estudo recente da Kansas State University, a prevalência de abscessos hepáticos variou de 7,6% a mais de 20% entre mais de 500 bois de corte oriundos de sistema leiteiro, alimentados com diferentes dietas de crescimento. Os menores índices ocorreram em animais submetidos a programas de manejo com energia moderada e restrição de ingestão. Os resultados indicam que decisões de manejo feitas meses antes do abate podem influenciar a saúde do fígado e o desempenho final.

Diferentemente de bezerros de corte nativos, os bovinos de sistema leiteiro iniciam o consumo de dietas à base de grãos ainda na fase de bezerros e podem passar por várias fases de produção antes de chegar ao confinamento. Essas transições podem gerar estresse e interrupções na ingestão de alimentos, contribuindo para o risco de abscessos hepáticos.

Evidências de que os abscessos podem se desenvolver mais cedo na vida

Tradicionalmente, a formação de abscessos no fígado está relacionada a dietas de alto grão e à acidez ruminal. A teoria clássica sugere que condições ácidas danificam a parede do rúmen, permitindo que bactérias entrem na circulação sanguínea e alcancem o fígado, onde formam as lesões.

No entanto, pesquisas recentes indicam que essa narrativa pode ser mais complexa.

Um estudo colaborativo envolvendo pesquisadores da Texas Tech University, da Kansas State University e do USDA conseguiu induzir abscessos hepáticos em bezerros de sistema leiteiro jovens por meio de inoculação intrarruminária com Fusobacterium necrophorum e Salmonella enterica. Os resultados mostraram que a acidez ruminal não era necessária para a formação e que a presença das bactérias causadoras era suficiente para induzir as lesões. Os bezerros utilizados tinham cerca de 88 kg ao início do experimento, o que sugere que o desenvolvimento de abscessos pode começar bem antes do que muitos produtores imaginam.

Essa pesquisa levanta novas questões sobre o momento de início das lesões hepáticas e os fatores que contribuem para sua formação em fases iniciais da vida.

Possíveis períodos de risco incluem:

  • Desmame
  • Transporte
  • Agrupamento de animais
  • Transições de dieta
  • Variações na ingestão de alimentos
  • Outros momentos de estresse fisiológico

Um grande desafio ainda é identificar esses abscessos antes do abate, pois muitas vezes os animais parecem saudáveis, e as lesões só são detectadas na inspeção de carcaça.

O uso de ultrassonografia pode ser uma ferramenta útil para diagnóstico. No estudo da Texas Tech e da Kansas State, a precisão do exame ultrassonográfico para detectar abscessos chegou a 97%, próxima ao final do período de pesquisa, indicando que, no futuro, será possível monitorar o desenvolvimento dessas lesões antes do abate.

Como os abscessos hepáticos afetam o crescimento e o desempenho

“O fígado é fundamental na coordenação do metabolismo de nutrientes e outros processos que sustentam o crescimento e a produção de leite”, explica Swanson.

Apesar de representar uma pequena parte do peso corporal, o fígado é um dos órgãos mais metabolicamente ativos do organismo.

“Juntando o peso do trato gastrointestinal e do fígado, podemos chegar a 20% a 25% do peso total, e, somando o fígado, coração, pulmões e pâncreas, esse percentual sobe para quase 50% do consumo energético total”, detalha Swanson.

Pequenas alterações na saúde do fígado podem gerar impactos significativos no desempenho do animal.

Segundo Swanson, os abscessos hepáticos podem afetar o desempenho de diversas formas importantes:

  • Aumentam os requisitos de manutenção
  • A inflamação e o reparo de tecidos consomem energia que poderia sustentar o crescimento
  • Fígados aumentados ou danificados demandam mais energia para manter suas funções
  • A eficiência de ganho de peso diminui à medida que mais nutrientes são desviados para manutenção
  • Perdas de desempenho podem ocorrer bem antes da identificação na inspeção de carcaça

Swanson estima que um aumento na massa hepática de 1,25% para 1,5% do peso corporal pode elevar em cerca de 4% os custos de manutenção, potencialmente reduzindo o ganho diário em aproximadamente 0,25 kg.

“Por que a eficiência de crescimento diminui em bovinos com abscessos no fígado?” questiona Swanson. “Acredito que grande parte do aumento na demanda energética seja relacionada às lesões e ao processo inflamatório.”

Essas perdas ajudam a explicar por que os abscessos hepáticos geram custos além da condenação do órgão e da retirada de partes na carcaça.

Medidas de manejo para reduzir o risco de abscessos hepáticos

Embora as pesquisas ainda busquem compreender exatamente quando os abscessos se formam e como eles influenciam o desempenho, alguns conceitos práticos vêm ganhando destaque.

Em vez de tratar os abscessos apenas na fase de terminação, veterinários e produtores devem encará-los como uma questão de gestão ao longo de toda a vida do animal.

As principais ações incluem:

  • Reduzir o estresse durante transições de fase
  • Manter padrões consistentes de ingestão alimentar
  • Gerenciar cuidadosamente mudanças na dieta
  • Apoiar a saúde ruminal na fase de crescimento e terminação
  • Avaliar estratégias de alimentação que incluam forragens adequadas e coproductos
  • Monitorar a saúde e a nutrição dos bezerros desde cedo, antes do ingresso no confinamento

Swanson reforça a importância de evitar uma busca por uma única causa para os abscessos.

“Acredito que seja uma combinação de fatores nutricionais, de saúde e de estresse, que se potencializam mutuamente”, afirma.

À medida que os estudos avançam na compreensão do momento de surgimento dos abscessos e seu impacto na performance, é fundamental que veterinários considerem esses problemas como desafios de saúde ao longo de toda a vida do animal, desde a fase de bezerro até o acabamento final.

Fonte: drovers.com