Agronegócio

Produtores de milho propõem programa de longo prazo para ampliar armazenamento e irrigação

Setor solicita uma estratégia de continuidade para reduzir o déficit de armazenagem e fortalecer investimentos em irrigação, buscando maior previsibilidade na produção agrícola.

Abramilho quer implementação de um plano plurianual para acesso aos recursos para armazenagem
Abramilho quer implementação de um plano plurianual para acesso aos recursos para armazenagem – Foto: Wenderson Araujo/CNA.

Produtores de milho defendem a implementação de um programa de longo prazo dedicado à construção de silos, armazéns e à ampliação de investimentos em irrigação, com o objetivo de diminuir o déficit de armazenamento no país e garantir maior estabilidade na produção agrícola.

Paulo Bertolini, presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Milho e Sorgo (Abramilho), destacou que o atual Plano Safra, divulgado em junho, não oferece condições para a construção de novas estruturas até a próxima safra. Ele propôs a criação de um plano plurianual que permita maior acesso a recursos destinados à armazenagem.

“Se há financiamento disponível e recursos excedentes, por que não há investimento suficiente? Como a irrigação e a armazenagem influenciam na inflação de alimentos e na segurança alimentar, é fundamental pensar esses setores fora do escopo do Plano Safra, adotando uma estratégia de longo prazo”, afirmou durante fórum realizado por entidade em Brasília em 12/8.

Ele explicou que, devido ao início das contratações do Plano Safra em julho e agosto, não há tempo hábil para concluir obras antes da colheita, o que desestimula a busca por esses investimentos. Bertolini, que também lidera a Câmara Setorial de Equipamentos para Armazenagem de Grãos (CSEAG) da Abimaq, reforçou a necessidade de uma estratégia de longo prazo para superar esse problema.

Atualmente, o Brasil enfrenta um déficit de mais de 130 milhões de toneladas de capacidade de armazenamento, resultado do crescimento acelerado na produção de grãos, que aumenta cerca de 17 milhões de toneladas ao ano, enquanto a expansão da capacidade de silos e armazéns ocorre a uma taxa menor, de 5 a 6 milhões de toneladas anuais.

“Se os ritmos de produção e de construção de estruturas continuarem assim, o cenário pode se tornar caótico. Apesar de exportar para 40 países, há uma ociosidade significativa na indústria nacional de estruturas de armazenamento”, alertou Bertolini.

O avanço na industrialização do setor de grãos, com a instalação de novas usinas de etanol de milho, tende a aumentar a demanda por mais armazéns. Como a maior parte da soja ainda é exportada, os silos funcionam como as “carrocerias dos caminhões, vagões e navios”, pontuou o executivo.

“À medida que o país se torna mais industrializado, a necessidade de armazenar maior volume de grãos cresce. Essa é a principal discrepância que enfrentamos”, completou Bertolini.

Fabrício Rosa, diretor da Aprosoja Brasil, ressaltou que ampliar a capacidade de estocagem pode diminuir custos e perdas. Dados da entidade indicam que cerca de 10% da soja e do milho são perdidos devido à insuficiência de armazenamento nas propriedades, o que equivale a aproximadamente 28 milhões de toneladas de grãos e um prejuízo de R$ 42 bilhões ao setor.

“Esse desperdício representa uma perda financeira significativa para os produtores, que deixam de obter o valor total de suas colheitas”, afirmou Rosa durante o evento.

Ele defendeu a necessidade de uma proposta de financiamento de longo prazo para investimentos em armazenamento, considerando os obstáculos atuais, como juros elevados e a dificuldade de garantir garantias nas operações de crédito.

“É urgente a criação de um fundo garantidor que possa oferecer recursos para custeio, aquisição de maquinário e construção de silos. Atualmente, os produtores atingiram limites de garantia que dificultam novos empréstimos”, completou Rosa.

Resposta do governo às demandas do setor

Wilson Vaz de Araújo, secretário-adjunto de Política Agrícola do Ministério da Agricultura, destacou que o Programa para Construção e Ampliação de Armazéns (PCA) oferece linhas de crédito mais acessíveis, com taxa de 8% ao ano, para estruturas de até 12 mil toneladas. O montante disponível é de R$ 2,5 bilhões, com limite de R$ 50 milhões por produtor, com prazo de pagamento de dez anos e dois de carência.

Contudo, o valor é inferior ao de 2025/26, que teve R$ 3,7 bilhões em crédito, com juros de 8,5%. Para estruturas maiores, o programa dispõe de R$ 3,4 bilhões, com taxa de 9,5%, ante R$ 4,5 bilhões e juros de 10% no ciclo anterior.

Desde a criação do PCA, mais de R$ 60 bilhões já foram disponibilizados, mas a maior parte não foi totalmente utilizada pelos produtores. Segundo o secretário, esse montante poderia financiar a armazenagem de até 50 milhões de toneladas, mas a baixa procura por esses recursos persiste, mesmo após ampliações no limite de capacidade financiável.

Fonte: Globo Rural.