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Pecuaristas colocam vacas na blockchain para conseguirem crédito

Inovadora operação combina monitoramento contínuo de vacas tokenizadas com garantias financeiras, oferecendo alternativas ao cenário de alta inadimplência no setor agropecuário.

Disparada nas recuperações judiciais e no endividamento dos produtores ajudam a tornar atrativa a oferta dos animais com rastreamento digital
Recuperações judiciais e endividamento dos produtores ajudam a tornar atrativa a oferta dos animais com rastreamento digital — Foto: Divulgação.

Uma parceria inovadora no setor pecuário resultou na utilização de vacas digitalizadas como garantia de crédito. Dez animais da Fazenda Engenho Velho, localizada em Imbituva (PR), avaliados em R$ 120 mil, serviram de respaldo para uma CPR Financeira (CPR-F) de R$ 100 mil, emitida pelo próprio produtor e adquirida pela BMP Sociedade de Crédito Direto, que liberou os recursos.

Após a emissão, a BMP transferiu os direitos creditórios da CPR para a fintech Target FIDC, que passou a ser a credora e registrou a operação na B3, utilizando informações biológicas de cada animal. Os dados são monitorados pela startup Cowmed, que emprega coleiras equipadas com sensores e inteligência artificial para acompanhar indicadores como saúde, comportamento, ruminação e bem-estar do rebanho.

Para garantir o rastreamento do rebanho, as vacas foram digitalizadas por meio de um processo conhecido como “tokenização”. Cada animal recebeu um registro digital, um “RG” protegido por blockchain contendo informações sobre saúde, comportamento e desempenho, coletadas pelas coleiras inteligentes.

Um código digital criptografado consolida essas informações, vinculando-se à CPR. Essa solução possibilita monitorar as condições do rebanho remotamente, eliminando a necessidade de inspeções presenciais na propriedade.

Segundo Humberto Brenner, diretor da Target FIDC, a avaliação tradicional de animais como garantia sofre com a falta de dados precisos de saúde e localização, levando a deságios que reduzem o valor de mercado. Com o monitoramento contínuo, essa incerteza é minimizada, aumentando a confiabilidade na avaliação do ativo.

As vacas podem ser vendidas a qualquer momento, permitindo que o produtor reponha os animais conforme necessário. Para manter a garantia, é preciso que a relação entre o valor do rebanho e o valor financiado seja de, pelo menos, 1,2:1, garantindo que a garantia valha pelo menos 120% do valor do crédito.

Segundo Brenner, a utilização de animais como garantia de crédito não é uma inovação, mas a novidade reside no monitoramento contínuo e na formalização da operação por meio de uma CPR negociada na bolsa.

Ele destaca que o aumento no número de recuperações judiciais e no endividamento dos produtores torna essa alternativa cada vez mais atrativa. As instituições financeiras passam a exigir garantias reais mais robustas e informações detalhadas sobre os ativos.

Thiago Martins, CEO da Cowmed, afirma que a tokenização das vacas de Imbituva representa a primeira operação desse tipo na B3, abrindo uma nova via para que produtores acessem crédito em um cenário de dificuldades econômicas no setor.

“A operação oferece ao produtor condições de crédito mais competitivas, com limites mais altos. Nosso objetivo é conectar o produtor às instituições financeiras por meio de uma alternativa inovadora”, afirma Martins.

Atualmente, a Cowmed monitora cerca de 100 mil vacas em 1.200 fazendas distribuídas por Brasil, Estados Unidos, Canadá, Uruguai, Paraguai e Bolívia. O valor estimado dessas vacas com coleiras inteligentes ultrapassa R$ 2 bilhões, segundo o executivo.

O CEO projeta que até 2025, aproximadamente 20% do rebanho monitorado seja oferecido como garantia para operações de crédito, o que representaria cerca de R$ 400 milhões em financiamentos.

Após a primeira operação, outros quatro produtores brasileiros estão em avaliação pela Target FIDC para obter crédito usando suas vacas monitoradas como garantia. A expectativa é que, até 2026, o valor total liberado ultrapasse R$ 5 milhões.

Fonte: Globo Rural.