
O feijão carioca, o mais consumido no Brasil, está prestes a ser utilizado na produção de alimentos industrializados na forma de uma proteína concentrada desenvolvida a partir de grãos quebrados e desvalorizados, conhecidos como “bandinhas”, que sobram durante o beneficiamento da leguminosa.
Pesquisadores da Plataforma Biotecnológica Integrada de Ingredientes Saudáveis (PBIS), do Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital) em Campinas, desenvolveram essa inovação. A proteína visa agregar valor a um subproduto agrícola e reduzir a dependência de proteínas vegetais importadas, como soja e ervilha.
A coordenadora do projeto, Mitie Sonia Sadahira, do Ital, explicou que o objetivo foi criar uma proteína de origem vegetal brasileira, aproveitando a produção de feijão carioca, que é uma das principais variedades do país.
O Brasil é o segundo maior produtor mundial de feijão, com a variedade carioca representando aproximadamente 54% de uma produção anual de 3 milhões de toneladas. O beneficiamento do grão gera entre 1% e 5% de “bandinhas”, que perdem valor comercial.
Isabela Emiliorelli, pesquisadora do Ital, destacou que a ideia foi agregar valor a esse coproduto.
Processo mais sustentável
Para extrair a proteína, os pesquisadores adotaram o fracionamento a seco, método mais ecológico que evita o uso de solventes e consome menos água e energia em comparação aos processos tradicionais de extração úmida.
O grão de feijão é moído e transformado em farinha integral, que, por separação mecânica, é dividida em duas frações: uma amilácea, rica em amido, e outra proteica. Essa tecnologia permite obter dois ingredientes a partir de um único processo.
A fração proteica alcançou uma concentração de 40% a 50% de proteína, com destaque para sua alta qualidade nutricional, conforme análises laboratoriais.
Ao comparar o perfil de aminoácidos da proteína do feijão carioca com o padrão da FAO, verificou-se que ela contém todos os aminoácidos essenciais, sendo nutricionalmente autossuficiente.
Diferentemente de outras proteínas vegetais, que geralmente apresentam um ou dois aminoácidos essenciais em quantidade insuficiente, a farinha obtida não necessita de complementação com cereais.
Pré-tratamentos térmicos aplicados ao feijão antes da moagem reduziram em até 95% fatores antinutricionais, como fitatos, inibidores de protease, taninos, lectinas e oligossacarídeos, que dificultam a absorção de nutrientes e causam desconforto digestivo.
Essa redução, aliada ao fracionamento, resultou em um ingrediente proteico com digestibilidade superior a 60%.
Além do valor nutricional, a tecnologia superou desafios relacionados ao sabor residual de terra e à coloração escura, comuns em proteínas vegetais.
O pré-tratamento térmico também melhorou a qualidade sensorial, conferindo sabor neutro e coloração clara, facilitando a aceitação e aplicação na formulação de alimentos.
Aplicações potenciais
A versatilidade do ingrediente foi demonstrada por meio de aplicações como pó instantâneo para cappuccino sem açúcar, com 5 gramas de proteína por porção.
Também foram desenvolvidos pós combinados com frutas tropicais, como manga e maracujá, utilizados em bebidas vegetais fermentadas, sem necessidade de aromas ou corantes artificiais.
A fração amilácea, que mantém de 10% a 20% de proteína, foi utilizada na produção de snacks de diferentes sabores, incluindo versões à base de pó de manga desidratada enriquecido com 8% de proteína.
Kaciane Andreola, pós-doutoranda no Ital, destacou que uma única matéria-prima, com a mesma tecnologia, permite gerar dois ingredientes de valor.
Como serão oferecidas ao mercado
As tecnologias de produção da proteína do feijão e suas aplicações serão disponibilizadas por meio de pacotes tecnológicos, prontos para transferência, adotando um modelo de inovação aberta.
As empresas envolvidas na plataforma terão preferência na licença das patentes e processos, que resultaram na criação de mais de 30 ingredientes alimentícios e 20 processos industriais em aproximadamente quatro anos e meio.
Caso as indústrias parceiras não manifestem interesse comercial dentro do prazo, as soluções serão disponibilizadas ao mercado geral, podendo ser licenciadas por outras indústrias, startups ou spin-offs acadêmicas.
A proteína de feijão carioca está sendo validada em escala industrial, com testes de processamento conduzidos pela SL Alimentos, uma das parceiras do projeto.
Fonte: Agência Fapesp.








