Grãos quebrados de feijão carioca originam novo ingrediente proteico

Pesquisadores do Instituto de Tecnologia de Alimentos em Campinas desenvolveram uma proteína concentrada de feijão carioca, principal variedade brasileira, usando um processo sustentável de fracionamento a seco, com potencial para agregar valor ao subproduto agrícola e reduzir a dependência de proteínas importadas. A inovação, que passa por validação industrial, oferece aplicações em alimentos como pós para bebidas e snacks, beneficiando o setor agro brasileiro e promovendo sustentabilidade.

As frações proteica e amilácea do feijão carioca são utilizadas na produção de salgadinhos, bebidas fermentadas, pós instantâneos e concentrados com frutas tropicais - Foto: Planeta Campo / Reprodução.
As frações proteica e amilácea do feijão carioca são utilizadas na produção de salgadinhos, bebidas fermentadas, pós instantâneos e concentrados com frutas tropicais – Foto: Planeta Campo / Reprodução.

O feijão carioca, o mais consumido no Brasil, está prestes a ser utilizado na produção de alimentos industrializados na forma de uma proteína concentrada desenvolvida a partir de grãos quebrados e desvalorizados, conhecidos como “bandinhas”, que sobram durante o beneficiamento da leguminosa.

Pesquisadores da Plataforma Biotecnológica Integrada de Ingredientes Saudáveis (PBIS), do Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital) em Campinas, desenvolveram essa inovação. A proteína visa agregar valor a um subproduto agrícola e reduzir a dependência de proteínas vegetais importadas, como soja e ervilha.

A coordenadora do projeto, Mitie Sonia Sadahira, do Ital, explicou que o objetivo foi criar uma proteína de origem vegetal brasileira, aproveitando a produção de feijão carioca, que é uma das principais variedades do país.

O Brasil é o segundo maior produtor mundial de feijão, com a variedade carioca representando aproximadamente 54% de uma produção anual de 3 milhões de toneladas. O beneficiamento do grão gera entre 1% e 5% de “bandinhas”, que perdem valor comercial.

Isabela Emiliorelli, pesquisadora do Ital, destacou que a ideia foi agregar valor a esse coproduto.

Processo mais sustentável

Para extrair a proteína, os pesquisadores adotaram o fracionamento a seco, método mais ecológico que evita o uso de solventes e consome menos água e energia em comparação aos processos tradicionais de extração úmida.

O grão de feijão é moído e transformado em farinha integral, que, por separação mecânica, é dividida em duas frações: uma amilácea, rica em amido, e outra proteica. Essa tecnologia permite obter dois ingredientes a partir de um único processo.

A fração proteica alcançou uma concentração de 40% a 50% de proteína, com destaque para sua alta qualidade nutricional, conforme análises laboratoriais.

Ao comparar o perfil de aminoácidos da proteína do feijão carioca com o padrão da FAO, verificou-se que ela contém todos os aminoácidos essenciais, sendo nutricionalmente autossuficiente.

Diferentemente de outras proteínas vegetais, que geralmente apresentam um ou dois aminoácidos essenciais em quantidade insuficiente, a farinha obtida não necessita de complementação com cereais.

Pré-tratamentos térmicos aplicados ao feijão antes da moagem reduziram em até 95% fatores antinutricionais, como fitatos, inibidores de protease, taninos, lectinas e oligossacarídeos, que dificultam a absorção de nutrientes e causam desconforto digestivo.

Essa redução, aliada ao fracionamento, resultou em um ingrediente proteico com digestibilidade superior a 60%.

Além do valor nutricional, a tecnologia superou desafios relacionados ao sabor residual de terra e à coloração escura, comuns em proteínas vegetais.

O pré-tratamento térmico também melhorou a qualidade sensorial, conferindo sabor neutro e coloração clara, facilitando a aceitação e aplicação na formulação de alimentos.

Aplicações potenciais

A versatilidade do ingrediente foi demonstrada por meio de aplicações como pó instantâneo para cappuccino sem açúcar, com 5 gramas de proteína por porção.

Também foram desenvolvidos pós combinados com frutas tropicais, como manga e maracujá, utilizados em bebidas vegetais fermentadas, sem necessidade de aromas ou corantes artificiais.

A fração amilácea, que mantém de 10% a 20% de proteína, foi utilizada na produção de snacks de diferentes sabores, incluindo versões à base de pó de manga desidratada enriquecido com 8% de proteína.

Kaciane Andreola, pós-doutoranda no Ital, destacou que uma única matéria-prima, com a mesma tecnologia, permite gerar dois ingredientes de valor.

Como serão oferecidas ao mercado

As tecnologias de produção da proteína do feijão e suas aplicações serão disponibilizadas por meio de pacotes tecnológicos, prontos para transferência, adotando um modelo de inovação aberta.

As empresas envolvidas na plataforma terão preferência na licença das patentes e processos, que resultaram na criação de mais de 30 ingredientes alimentícios e 20 processos industriais em aproximadamente quatro anos e meio.

Caso as indústrias parceiras não manifestem interesse comercial dentro do prazo, as soluções serão disponibilizadas ao mercado geral, podendo ser licenciadas por outras indústrias, startups ou spin-offs acadêmicas.

A proteína de feijão carioca está sendo validada em escala industrial, com testes de processamento conduzidos pela SL Alimentos, uma das parceiras do projeto.

Fonte: Agência Fapesp.