
O Brasil tem avançado na produção de etanol de milho, especialmente na região Centro-Oeste, consolidando-se como uma alternativa de energia limpa que amplia seu portfólio, que já inclui hidroeletricidade, solar, eólica e biomassa. Apesar de sua juventude, com menos de uma década de operação no país, essa indústria responde por quase 30% da produção nacional do combustível.
Seu diferencial está na integração com a agricultura, sobretudo na rotação com soja, o que aumenta a eficiência do uso da terra, melhora a fertilidade do solo e evita competir com a produção de alimentos, afastando o dilema ‘food versus fuel’.
Além do mais, a geração de coprodutos como o DDG — grãos secos de destilaria ricos em proteína — amplia a cadeia de valor, contribuindo para a nutrição animal e reforçando a circularidade do sistema de produção. Assim, o etanol passa a fazer parte de uma economia mais sustentável, com potencial para remoção de carbono.
As usinas de etanol de milho também utilizam energia térmica, tradicionalmente gerada por biomassa de eucalipto no Brasil, diferentemente de países que dependem do gás natural. A produção de biomassa é sustentada por um setor que planta, colhe e replantas árvores em mais de 10,5 milhões de hectares, além de conservar outros 7 milhões de hectares de mata nativa, sempre seguindo práticas responsáveis.
Esse setor promove mosaicos florestais, com áreas de plantio intercaladas por mata nativa, formando corredores ecológicos que contribuem para a conservação do solo, recursos hídricos e biodiversidade, demonstrando capacidade de integrar produção, sustentabilidade e inovação.
Algumas empresas de etanol de milho já possuem suas próprias bases florestais, garantindo maior autonomia energética e uma pegada de carbono mais baixa, o que potencializa sua inserção no mercado internacional e reforça sua credibilidade ambiental.
No entanto, a expansão do setor apresenta riscos ambientais se não for acompanhada de uma base produtiva estruturada. A demanda crescente por biomassa, sem planejamento adequado, pode gerar pressão sobre florestas nativas, como ocorreu antes do Código Florestal, que exigiu a implementação de planos de suprimento sustentável (PSS) para evitar o desmatamento.
Historicamente, a resposta a esse desafio foi fortalecer a base de árvores plantadas, por meio de regulações, investimentos e avanços tecnológicos, transformando o que antes era uma fonte de risco em uma vantagem competitiva do Brasil na bioeconomia.
Hoje, o crescimento acelerado do etanol de milho revela um descompasso entre oferta de biomassa e expansão das usinas, o que pode elevar custos, complicar logística e aumentar riscos ambientais e reputacionais se não for devidamente gerenciado.
Para garantir a sustentabilidade, é fundamental que as licenças ambientais para novas indústrias considerem a obrigatoriedade de base florestal plantada, reforçando a importância do planejamento e fiscalização adequada pelos estados.
Iniciativas como o Plano de Desenvolvimento Florestal de Goiás exemplificam essa estratégia, ao promover incentivos e planejamento de longo prazo para ampliar a base de árvores de forma sustentável, potencializando a bioeconomia brasileira.
O Brasil possui condições únicas para liderar essa transição, com mais de 100 milhões de hectares de áreas degradadas passíveis de recuperação e tecnologia avançada, que permite a maior produtividade no cultivo de eucalipto. Assim, transformar a expansão do setor em uma estratégia de longo prazo é o próximo passo para consolidar a liderança na bioeconomia.
O etanol de milho representa uma oportunidade de integrar energia, floresta e agricultura, consolidando um modelo de desenvolvimento sustentável e inovador, que reforça a posição do Brasil na transição energética global.
Mais uma vez, o país enfrenta a decisão de transformar crescimento em uma estratégia de longo prazo, fortalecendo sua presença na bioeconomia e na produção de energia limpa.
Esse artigo foi escrito por Paulo Hartung, presidente-executivo do Ibá. Foi governador do Espírito Santo entre 2003 e 2010 e entre 2015 e 2018; Adriano Scarpa Tonaco é diretor de relações institucionais do Ibá.
Fonte: The AgriBiz.











